Muito antes de se transformar no capitão Jack Sparrow e em um dos rostos mais reconhecidos do cinema, Johnny Depp cresceu em uma casa que ele próprio descreveu como marcada pela violência e pela falta de segurança. Décadas depois, ao prestar depoimento em um tribunal, o ator falou publicamente sobre agressões físicas e psicológicas sofridas durante a infância e sobre o contato muito precoce com drogas.
Johnny Christopher Depp II nasceu em Owensboro, no Kentucky, nos Estados Unidos. Era o caçula de quatro filhos de Betty Sue Palmer, que trabalhava como garçonete, e John Christopher Depp, engenheiro civil. A família se mudou diversas vezes até se estabelecer na Flórida.
As mudanças de endereço, porém, estavam longe de ser o principal problema que ele enfrentava dentro de casa.
Durante o julgamento envolvendo a ex-mulher Amber Heard, em 2022, Depp relatou que sua mãe era violenta com ele e com os irmãos. Segundo o ator, objetos que estivessem ao alcance dela podiam acabar sendo usados durante as agressões.
Ele contou que podia ser atingido por um cinzeiro, por um sapato de salto alto ou mesmo por um telefone. Depp também afirmou que os abusos verbais e psicológicos chegavam a ser piores do que as agressões físicas, porque, em suas palavras, a dor física era algo que ele havia aprendido a suportar.
Depp descreveu o pai de maneira bastante diferente. Segundo suas lembranças, John Depp Sr. era um homem reservado que evitava reagir às provocações e agressões da esposa.
O ator relatou que chegou a vê-lo profundamente abalado durante discussões, mas afirmou que nunca presenciou o pai agredir a mãe. Quando criança, Depp tinha dificuldade para compreender por que ele permanecia naquela situação.
A separação aconteceu em 1978, quando o futuro ator tinha 15 anos. Na época, Johnny interpretou a saída do pai como abandono e chegou a considerá-la uma atitude covarde. Com o passar dos anos, disse ter entendido que o pai havia chegado ao limite e tomado a decisão que considerava necessária.
Depois da separação, segundo Depp, Betty Sue entrou em uma depressão profunda e tentou tirar a própria vida ingerindo uma grande quantidade de comprimidos. Ela sobreviveu. Sua mãe morreu décadas depois, em 2016.
Foi nesse ambiente instável que Depp começou a consumir substâncias ainda menino.
O ator afirmou que começou a tomar medicamentos por volta dos 11 anos. Mais tarde, ao recordar esse período, disse ter experimentado diferentes tipos de drogas desde muito jovem e relacionou esse comportamento aos problemas que vivia dentro de casa.
O consumo de álcool e outras substâncias seria um problema recorrente em diferentes momentos de sua vida adulta. Durante os processos judiciais que expuseram boa parte de sua intimidade, Depp voltou a falar sobre o assunto e relacionou o uso precoce de drogas à tentativa de lidar com uma vida familiar que não considerava estável ou segura.
Ainda adolescente, ele direcionou parte de sua atenção para a música. Abandonou o ensino médio e tocou em bandas antes de tentar a sorte em Los Angeles. A carreira que acabaria tornando seu nome conhecido no mundo inteiro, curiosamente, não era o plano inicial.
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Johnny Depp começou a atuar na década de 1980. Um de seus primeiros trabalhos importantes no cinema foi em A Hora do Pesadelo, lançado em 1984. Pouco depois, ganhou projeção nacional nos Estados Unidos ao integrar o elenco da série policial Anjos da Lei (21 Jump Street).
O sucesso na televisão transformou Depp em ídolo juvenil, uma imagem com a qual ele nunca demonstrou muito conforto. Nos anos seguintes, passou a escolher personagens menos convencionais e trabalhou em produções como Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood, Donnie Brasco, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça e Chocolate.
A mudança definitiva de patamar veio em 2003.
Naquele ano, Depp apareceu pela primeira vez como Jack Sparrow em Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra. A interpretação excêntrica do pirata rendeu ao ator sua primeira indicação ao Oscar de melhor ator.
A franquia se transformaria em um enorme sucesso comercial. Os cinco filmes de Piratas do Caribe lançados entre 2003 e 2017 arrecadaram, juntos, cerca de US$ 4,5 bilhões nas bilheterias mundiais. Dois deles ultrapassaram individualmente a marca de US$ 1 bilhão.
Depp ainda receberia outra indicação ao Oscar no ano seguinte, por Em Busca da Terra do Nunca.
Sua popularidade naquele período também extrapolava o cinema. A revista People, responsável há décadas pela tradicional eleição do “Sexiest Man Alive”, colocou Depp entre o pequeno grupo de homens que receberam a distinção em mais de uma ocasião.
O êxito profissional não impediu que a vida pessoal do ator se tornasse assunto frequente da imprensa.
Depp teve relacionamentos conhecidos com atrizes como Winona Ryder e, posteriormente, viveu durante anos com a cantora e atriz francesa Vanessa Paradis. Os dois tiveram dois filhos, Lily-Rose Depp e Jack Depp.
Ao falar sobre a própria experiência como pai, Depp já declarou que as lembranças da infância influenciaram diretamente a maneira como decidiu criar seus filhos. Ele afirmou ter procurado evitar gritos e agressões e privilegiar conversas para explicar consequências e limites.
Anos mais tarde, seu casamento com Amber Heard colocou sua vida privada novamente sob intenso escrutínio. O relacionamento terminou e desencadeou uma longa disputa judicial. Em 2022, um júri da Virgínia decidiu majoritariamente a favor de Depp no processo por difamação que ele havia movido contra Heard; a atriz também venceu uma das alegações de sua reconvenção.
Foi justamente durante aquele julgamento, acompanhado internacionalmente, que detalhes sobre a infância de Johnny Depp ganharam uma exposição muito maior. Ao falar sobre a mãe, o pai, as agressões e o consumo precoce de drogas, o homem conhecido durante décadas por personagens extravagantes de Hollywood apresentou ao público uma parte de sua biografia que começara muito antes da fama.
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