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Ele ficou famoso, enriqueceu e levou 22 anos para cumprir a promessa que fez quando não tinha nada

Sete dólares dificilmente parecem suficientes para iniciar um grande projeto. Para Danny Thomas, porém, aquela quantia representava tudo o que ainda possuía — e acabou ligada ao nascimento de uma instituição que mudaria o tratamento do câncer infantil nos Estados Unidos.

Em 1940, antes da fama na televisão e no cinema, Danny enfrentava uma fase de forte insegurança financeira. Aos 28 anos, trabalhava em casas noturnas e pequenos programas de rádio, sem conseguir estabilidade. Sua esposa, Rose Marie, estava grávida do primeiro filho, e ele considerava abandonar a carreira artística para procurar um emprego mais previsível.

Foi nesse período que entrou em uma igreja de Detroit com apenas sete dólares no bolso. Danny colocou todo o dinheiro na caixa de doações e, diante de uma imagem de São Judas Tadeu, fez uma promessa: caso encontrasse seu caminho profissional, construiria um santuário em homenagem ao santo conhecido, na tradição católica, como padroeiro das causas consideradas sem esperança.

A frase atribuída a ele resume o pedido: “Mostre-me o meu caminho na vida, e eu construirei um santuário para você”.

A promessa que Rose Marie ainda não conhecia

Danny não contou imediatamente à esposa o que havia prometido. Rose Marie tomou conhecimento aos poucos, à medida que aquela decisão começou a orientar os planos do marido.

O casal, formado por descendentes de famílias libanesas e italianas, criou três filhos: Marlo, Terre e Tony. Durante os primeiros anos do casamento, porém, o futuro ainda parecia incerto. Danny precisava sustentar a casa enquanto tentava construir uma carreira em um meio altamente competitivo.

A situação começou a mudar quando ele conquistou espaço no rádio. Depois vieram participações no cinema e, por fim, a televisão. Seu maior sucesso foi a série Make Room for Daddy, lançada em 1953 e posteriormente chamada de The Danny Thomas Show. Na produção, ele interpretava um artista de boate tentando conciliar apresentações, viagens e responsabilidades familiares — uma rotina bastante próxima daquela que vivia fora das câmeras.

O programa permaneceu no ar por mais de uma década e transformou Danny Thomas em um dos nomes mais populares da televisão americana. A estabilidade que ele havia pedido chegou, mas trouxe também a responsabilidade de cumprir o acordo feito anos antes.

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De um pequeno santuário a um hospital infantil

No início, Danny pensava em construir uma igreja ou instalar uma estátua em homenagem a São Judas Tadeu. Com o tempo, entendeu que o “santuário” poderia assumir uma forma mais prática: um hospital dedicado a crianças com doenças graves.

A proposta era ambiciosa. Ele queria criar uma instituição que reunisse atendimento médico e pesquisa científica, recebesse pacientes de diferentes origens e não recusasse crianças por causa da religião, da raça ou da situação financeira da família.

Para financiar o projeto, Danny usou a própria fama. Realizou apresentações beneficentes, participou de jantares, procurou empresários e viajou pelos Estados Unidos pedindo contribuições. Também mobilizou comunidades de imigrantes árabes, especialmente grupos de origem libanesa e síria, que tiveram participação decisiva na campanha.

Em 1957, ele e seus apoiadores organizaram a ALSAC, sigla em inglês para Associação Americana de Caridades Libanesas e Sírias. A entidade ficou responsável por arrecadar recursos e divulgar o futuro hospital. A comunidade árabe-americana participou do projeto antes mesmo da abertura da instituição e segue ligada ao seu financiamento.

O St. Jude abriu as portas 22 anos depois da promessa

O St. Jude Children’s Research Hospital foi inaugurado em Memphis, no Tennessee, em 4 de fevereiro de 1962. Cerca de 9 mil pessoas acompanharam a cerimônia de abertura, realizada 22 anos após a promessa feita por Danny na igreja de Detroit.

O hospital foi criado para tratar doenças pediátricas graves e, ao mesmo tempo, desenvolver pesquisas que pudessem melhorar terapias contra cânceres infantis, doenças hematológicas e outras condições potencialmente fatais.

A escolha de Memphis também carregava um significado importante. O St. Jude tornou-se o primeiro hospital infantil totalmente integrado do sul dos Estados Unidos. Crianças negras e brancas eram atendidas no mesmo espaço, enquanto profissionais de diferentes grupos raciais trabalhavam juntos, em uma região ainda marcada pela segregação.

Desde o início, a missão estabelecia que nenhuma criança deveria ser rejeitada por causa da raça, da religião ou da capacidade financeira da família. O modelo atual ampliou esse compromisso: as famílias atendidas não recebem cobranças por tratamento, viagem, hospedagem ou alimentação.

Rose Marie ajudou a sustentar o projeto

A história costuma ser resumida como o cumprimento da promessa individual de Danny Thomas. Essa versão deixa de lado a participação constante de Rose Marie.

Ela acompanhou o marido em eventos beneficentes, visitas ao hospital, jantares e campanhas de arrecadação. Enquanto Danny era o rosto público do projeto, Rose Marie ajudava a administrar os compromissos familiares e apoiava a expansão da instituição.

A rotina do casal passou a girar em torno do St. Jude. Viagens que poderiam estar ligadas somente à carreira artística frequentemente incluíam encontros com doadores, apresentações para arrecadar recursos e conversas sobre as necessidades do hospital.

Os filhos cresceram observando essa dedicação. Marlo, Terre e Tony não estavam presentes quando o pai fez a promessa, mas aprenderam desde cedo que o hospital fazia parte das responsabilidades da família. Dados biográficos oficiais do St. Jude registram Rose Marie como esposa de Danny e os três como seus filhos.

Os filhos continuaram o trabalho

Marlo Thomas seguiu carreira como atriz, produtora e escritora, mas também assumiu uma função pública na defesa do hospital. Durante décadas, atuou como diretora nacional de divulgação do St. Jude, participando de campanhas, entrevistas, eventos e ações de arrecadação.

Terre Thomas manteve envolvimento com iniciativas beneficentes e atividades relacionadas à instituição. Tony Thomas, produtor de televisão, também permaneceu ligado ao trabalho iniciado pelo pai. O próprio material institucional do hospital aponta os três irmãos como responsáveis por continuar a missão familiar depois da morte de Danny.

A participação dos filhos ajudou a impedir que o projeto dependesse exclusivamente da imagem de seu fundador. O St. Jude já havia se transformado em uma grande instituição de pesquisa e atendimento, mas a presença da família continuava importante para preservar sua história e ampliar a arrecadação.

Danny Thomas foi sepultado no local que ajudou a construir

Em 4 de fevereiro de 1991, Danny participou da comemoração dos 29 anos do St. Jude. Dois dias depois, em 6 de fevereiro, morreu aos 79 anos.

Seu corpo foi sepultado nos terrenos do hospital, em Memphis. A escolha encerrava simbolicamente uma história iniciada décadas antes, quando ele ainda era um artista desconhecido tentando descobrir se conseguiria sustentar a própria família.

Rose Marie viveu por mais nove anos. Após sua morte, em 2000, foi enterrada ao lado do marido no Danny and Rose Marie Thomas Memorial Garden. O nome dado ao memorial reconhece que o cumprimento da promessa dependeu também da mulher que acompanhou Danny durante a construção e a manutenção do hospital.

Danny Thomas recebeu ainda a Medalha de Ouro do Congresso dos Estados Unidos por seu trabalho humanitário. Sua contribuição, no entanto, continuou visível principalmente na estrutura que deixou em Memphis: um hospital que nasceu de uma promessa pessoal, ganhou força com o trabalho de uma família e se tornou referência internacional em pesquisa e tratamento de doenças infantis.

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Gabriel Pietro

Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.

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