Doenças modernas: o carisma invertido

Temos diariamente quinhentos mil motivos para reclamar: a conta da luz está caríssima, o vizinho da frente fala aos berros com o filho, o elevador quebrou de novo, o dinheiro ainda não entrou na conta, o mercado está um roubo, o 3G não está funcionando!!! Sim, temos motivos de sobra.

E temos, igualmente, uma quantidade variada de pessoas que passam por nós, que vêm até nós, que convivem diariamente conosco, que nos observam, certas delas até desejariam nos conhecer um pouco mais, compartilhar momentos conosco, enfim, é gente o bastante para espantar qualquer solidão, mas… sequer prestamos atenção.

E perdemos muito, deixamos passar muito, desperdiçamos muito.

E por quê? Por que, sem perceber, nessas horas estamos no modo – carisma invertido -, esbravejando, lamentando, olhando para o vazio, para céu, para o chão, para a carteira, para a TV, para o celular, menos para os olhos uns dos outros.

Carisma invertido é uma espécie de acessório que vamos agregando ao longo da vida, especialmente, em alguma épocas mais azedas.

Temos a opção de exalar sorrisos, bom humor, piadas, elogios, abraços, mas, preferimos vociferar discursos intermináveis contra a política atual.

Temos a chance de conquistar mais algumas amizades numa reuniãozinha social, mas, escolhemos fazer o tipo antipático que só fala com quem já conhece e, em último grau, que faz uma cena teatral contando suas vantagens, monologando com seu copo e entediando a todos.

Podemos sair de casa e cumprimentar todas aquelas pessoas que diariamente passam por nós. O zelador, a moça que passeia com três cachorros, o jornaleiro, o vigilante do banco, a mal-humorada da padaria… mas, o que fazemos? Abaixamos a cabeça, fingimos que estamos pegando algo na bolsa, falando no telefone.

Dessa forma, vamos nos transformando pouco a pouco num grupo cada vez maior de pessoas de carisma invertido. A pessoa interessante que mora em nós vai perdendo espaço para o posseiro rabugento, o matador de risadas, o que já sabe tudo e não está a fim de trocar nem aprender com ninguém.

Fica, portanto, uma seleção de dicas para quem quer manter o seu carisma no estado natural, sem inversões ou mutilações:

  • Não seja mal-educado sob nenhuma desculpa;
  • Não use as crises, quais forem, como escudo para sua falta de assunto;
  • Não fale mal do que não sabe. Não agrida antes para perguntar depois;
  • Não use meias palavras quando uma pergunta exigir resposta inteira;
  • Não retribua um sorriso com indiferença;
  • Não categorize pessoas;
  • Não faça tipo, não seja um tipo, não imite um tipo;
  • Não pense que a paciência alheia é ilimitada;

E, por fim, esforce-se todos os dias para ser aquele tipo de pessoa que você admiraria pelo carisma!

Nota: A imagem de capa é uma homenagem ao filme “A fantástica fábrica de chocolate”.

Leia também: Segredo da felicidade: saber que tudo pode mudar

Emilia Freire

Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

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