Desde que você foi embora eu não penso em outra coisa que não seja sua ausência

Imagem de capa Kseniia Perminova/ Shutterstock

Desde o dia em que você foi embora, as coisas não são mais as mesmas. Eu tiro do lugar as coisas, com um movimento pincelo a cor da parede, mudo a posição dos quadros. Eu tiro o lugar das coisas, mas elas não mudam. Essa coisa do território é algo que marca, e parece que, elas sabem disso porque me olham com aquele olhar parado de coisa, enquanto eu transfiro do lugar mais um objeto pra ver se a sua ausência fica menos pesada. Há dias, que não é o mesmo café, filtrado naquele coador de pano, com aquelas bordas espichadas. Coloco a dose certa, mas não é o mesmo gosto de quando tomava com você, olhando seus olhos através da xícara e vendo as imagens distorcidas do outro lado. Eu gosto das imagens distorcidas, da estranheza que elas causam, mas você nunca foi estranho pra mim… até aquele dia. Você sempre foi tão quieto, mas o seu silêncio nunca me incomodou… até aquele dia. Eu tento apagar aquele dia, mas eu não sei me desfazer de uma memória tão recente. Ainda tenho na minha pele o seu cheiro e o desenho dos seus lábios margeando os meus poros. Desde o dia em que você foi embora eu não sei pensar em outra coisa que não seja essa que me partiu e espalhou por todo canto. E me junto às coisas pra ver se me importo menos, pra ver se pego essa imparcialidade calada que as coisas têm, mas é só um jeito de sentir mais fundo, de tocar a superfície das coisas que você tocava, com um jeito meu, que é só mais uma forma de lembrar você. Junto as coisas pra sentir que ainda podem ser íntegras e ter alguma serventia, mas estão com uma fissura enorme do lado de dentro. E eu fico nessa de fingir que não vejo que as coisas ocas reverberam um som triste que se liquefaz no vazio da tarde, mas eu sinto tudo gritando, o que é bem pior. Penso em te ligar pra dizer que eu sinto muito, mas você deixou bem claro que foi tudo que era pra ser, como se já soubesse que o futuro omitia o nosso nome de todas as coisas.

Ester Chaves

ESTER CHAVES é uma escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participa de vários eventos poético-musicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. Em junho de 2016, teve o conto “Os Voos de Josué” selecionado na 1ª edição do Prêmio VIP de Literatura, da A.R Publisher Editora.

Recent Posts

Erin Brockovich virou um clássico, mas alguns detalhes da história real quase não aparecem no filme

Quando Erin Brockovich chegou aos cinemas, em 2000, boa parte do público conheceu a ativista…

1 dia ago

Ela foi chamada de “boneca de verdade” aos 2 anos; é incrível vê-la agora, aos 18

Aira Marie Brown ainda era uma criança pequena quando suas fotografias começaram a circular pela…

1 dia ago

A pergunta de David Letterman que deixou Jennifer Aniston extremamente constrangida

Em maio de 2006, Jennifer Aniston estava em plena divulgação de The Break-Up, comédia romântica…

1 dia ago

Como um trágico acidente aéreo moldou uma estrela da comédia

Stephen Colbert se tornou um dos rostos mais conhecidos da televisão americana graças ao humor…

1 dia ago

Esta foto de 6 garotas com apenas 5 pares de pernas está deixando todo mundo intrigado

À primeira vista, a fotografia parece bastante comum: seis jovens estão sentadas lado a lado…

2 dias ago

A menina sorridente desta foto se tornou uma das mulheres mais diabólicas da história

Nascida em 1953 no condado de Devon, na Inglaterra, Rosemary Letts parecia uma criança comum…

2 dias ago