De volta à superfície

Era uma piscina de águas muito limpas e sobre ela incidia um feixe de luz. Mirei os fios rutilantes e saltei naquele azul translúcido e tépido.
A submersão foi vertiginosa e parecia interminável. Na descida, a luz escasseava.

As águas, cada vez mais frias, ganhavam consistência e me colavam nas vestes, que iam se desprendendo do meu corpo e me despindo dentro daquela escuridão pegajosa, turbulenta e gelada.

Eu idealizava objetos em que me pudesse agarrar. Eles então me surgiam, como por encanto, mas escorregavam de minhas mãos impotentes, largavam-se velozes na correnteza e sumiam no limo.

Quando toquei o solo, lá no fundo, uma dor aguda e eletrizante atravessou-me por dentro e impulsionou todo meu ser para o alto. Ao emergir, via as águas retomando fluidez, transparência e cintilânica. Faltava oxigênio e temi não alcançar com vida a superfície, mas uma força invisível me lançou para o ar livre.

Num ímpeto, gritei, como um recém-nascido que respira pela primeira vez. Meus olhos se abriram de súbito e percorreram a paisagem do quarto. Os lençóis, revoltos, estavam encharcados de suor e a iluminação, ainda incipiente, deixava entrever a caixa de comprimidos para dormir sobre um livro aberto no conto “O Triunfo”, de Clarice Lispector. Por trás dessa natureza morta, raios de sol resolutos se insinuavam pelas frestas das persianas.

Retrocedi à avassaladora sequência de fatos que desembocaram na leitura daquelas páginas. Desejei estancar o fluxo, apagar aqueles dias e horas e até não habitar esse planeta, essa vida, esse corpo. A consciência, em réplica, ruminou convicções antigas, obviedades redentoras que quase me fizeram sorrir. Ela me disse que não se redesenha uma linha de acontecimentos, mas um rol infinito de significados se oferecia à minha percepção da vida vivida.

A luminosidade invasiva conduziu meu olhar para a janela. O sol queria mesmo entrar.

Que escolha, afinal, pode haver diante do dia que suplica, com o esplendor de sua morna claridade, por uma nova chance?

O que fazer com os pulmões cheios de ar e de lembrança do mergulho profundo?

Existir se impõe. A fúria da vida é invencível. Só me resta amanhecer. E recomeçar.

***
Photo by Tyler Raye on Unsplash

Ana Flavia Velloso

Formada em Direito pela Universidade de Brasília, e mestre pela Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne). Advogada, é professora de Direito Internacional Público. É muito feliz na escolha profissional que fez, mas flerta desde sempre com as letras.

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Ana Flavia Velloso
Tags: superfície

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