Crônica da melhor idade (ou como envelhecer sem traumas)

Por Claudia Antunes

Minha neta aflorou. Sim, está com sete anos. Mais alta, também. Os dentes permanentes nasceram grandes, dando ao sorriso dela um ar menos infantil. Parou de me enviar mensagens subliminares através de calorosos bilhetinhos, sugerindo um presente caro, o que minha filha sempre combateu: – ‘Mãe, deixa isso para o aniversário’. Não estou vendo uma peça de roupa dela esquecida aqui em casa. A estante que esvaziei para que guardasse seus desenhos em guache ou lápis de cor está impecavelmente arrumada e sem novidades. Não chora mais quando sai de minha casa.

Perguntei-lhe se participou das oficinas de férias no shopping e ela disse que sim. Mas não me trouxe nada do que fez… Nem entrou em detalhes sobre o evento. Tenho um quadro de cortiça com moldura onde coloco algumas de suas fotos, desenhos e aqueles trabalhinhos escolares que deslocam meu espírito de lugar. Curiosamente, está igual há mais de três meses. Verdade seja dita que as duas primas mais velhas passaram um mês no Rio, trocando segredinhos que eu desconheço. E as músicas que as três cantavam também não estão no repertório do Disney Channel. Saíram à noite, foram beliscar no Bar Belmont, respectivamente acompanhadas de pais e mães. Mas não devia ter lugar para Avó. Fiquei em casa tomando conta do cachorro, que está velhinho e uiva quando se sente só. Foram dormir no apartamento da tia jovem, que promove desfiles entre elas, ensina truques de maquiagem e ainda posta as fotos do making of no facebook.

 

 

Depois da partida das primas que trouxeram gírias da pauliceia, danças das festinhas locais e um mundo hermético que nem um hacker consegue invadir, fiquei precisando de uma reciclagem. Telefonei para ela hoje: ‘Amor, Vovó vai ao oftalmologista. Quer ir comigo?’. Completamente ciente de seu papel em minha vida, respondeu: ‘É perto ou você vai precisar de alguém que segure o seu braço?’.
Ela amadureceu. Eu envelheci. E preciso de cuidados, vistos pelos olhos meigos e pela doce alma que nela reside.

 

 

 

 

 

 

 

Claudia Antunes é carioca, jornalista e já trabalhou em jornais como Jornal da Tarde (SP), O Estado de S. Paulo, Jornal do Commercio e Tribuna da Imprensa e nas Revistas Manchete, Fatos & Fotos e Visão (atual Isto É). Jardim Botânico do Rio de Janeiro e INEA.

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