Como envelhecer sem ficar velho

“O mundo não é maravilhoso, mas é repleto de pequenas maravilhas” – assim falou Guimarães Rosa.

Tenho para mim que a reinvenção de si mesmo certamente é uma dessas maravilhas.

Somos deveras apegados ao que pensamos que somos. Construímos uma ideia sobre nós e fazemos a manutenção dessa ideia a partir da repetição de nossas predileções. Tendemos a acreditar que nossas preferências nos definem e encerram.

Todavia, quanto mais certezas sobre nós possuímos, menos nos abrimos para aprender coisas novas. Resultado? Atrofiamos. Envelhecemos.

Envelhecer nada mais é do que fincar pé. Fincar pé ou bandeira num jeito de ser somente por não saber (ou temer) como existir de outro modo.

Neste sentido um adolescente pode ser infinitamente mais velho do que uma pessoa de setenta anos que se permite vivenciar novas experiências e mudar de opinião.

De acordo com o psicanalista J. D. Nasio, autor do livro “Por que repetimos os mesmos erros”, nosso inconsciente trabalha dia e noite para nos manter presos à repetição de velhos padrões por uma questão de autopreservação.

Ou seja? É preciso bastante empenho para quebrar certos ciclos de repetição e um bocado de emancipação emocional para “manter-se jovem”.

Especialistas apontam que para manter-se jovem o cérebro precisa ser estimulado e sugerem exercícios como palavras-cruzadas e jogo de xadrez; atividade física e estudo de uma nova língua também são indicados.

Mas o que adianta fazer palavras-cruzadas e continuar ouvindo somente as músicas de sempre?

O que adianta jogar xadrez e não experimentar uma nova culinária somente por que prefere massas?

Fazer atividade física e não tentar mudar um comportamento (ou vício emocional) destrutivo?

Aprender um novo idioma, mas não se abrir para um novo gênero literário?

Sim, nossas preferências oferecem preciosas pistas sobre a nossa personalidade – o psicólogo e pesquisador Marvin Zuckerman, da Universidade de Delaware, Estados Unidos, descobriu, por exemplo, que pessoas ávidas por sensações preferem, em geral, ouvir rock e composições clássicas ( confira aqui a lista completa de personalidade X estilo musical) – mas devemos tomar cuidado para não nos tornamos reféns das nossas predileções.

Fazemos terapia, numerologia, mapa astral, testes de personalidade no Facebook. Lemos horóscopo, autoajuda, artigos de psicologia. Queremos saber quem somos e para onde devemos (conseguimos) ir, mas ao que tudo indica, tanto aventureiros quanto conservadores, tanto sagitarianos quanto virginianos padecem do mesmo mal: o receio de desintegração na experimentação de um novo modo de vida ou ponto de vista.

“Se eu não for o que sei que sou o que serei”? A indagação soa como ameaça ou sentença.

No entanto nunca deixaremos para trás o que conquistamos, apenas acrescentaremos novos dados ao nosso “HD existencial” a cada nova experiência.

Romper padrões (de comportamento ou pensamento) é tarefa árdua. Gera uma ansiedade tremenda. Distanciar-se de si, tornar-se estrangeiro de si mesmo, pode ser desolador, mas há uma grande recompensa: a liberdade.

A liberdade de saber que às vezes é preciso se perder para se achar. A liberdade de não ter medo de errar, de poder mudar de ideia e de poder viver mil vidas numa só sem deixar que o vestido da alma amarele, desbote ou ganhe rugas.

Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

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