Marcel Camargo

Chega de romantizar a pessoa que você precisa esquecer

Parece mentira, mas também costumamos relutar em nos desprender daquilo a que nos apegamos sem que nos traga nada de bom, sem que nos faça bem, sem que haja utilidade alguma. Mantemos junto objetos inúteis e pessoas tóxicas, prolongando sofrimento, espaços lotados, impedindo, assim, que o novo e o melhor cheguem até as nossas vidas.

Nosso guarda-roupa é cheio de peças que sabemos serem ultrapassadas, que não serão mais usadas. Nossos armários guardam louças, enfeites, quadros e outros objetos que certamente não terão alguma serventia nunca mais. Caixas se acumulam com papéis, boletos, receitas, santinhos, dentre inúmeras papeladas que não servem para nada, além de juntar traça.

De forma semelhante, agimos em relação às pessoas. Insistimos, muitas vezes, em amizades duvidosas, em familiares que não retornam nada, em amores que nem amores são. Só a gente procura, só a gente se doa, só a gente se importa. Só a gente telefona, só a gente manda mensagem, só a gente convida. Pecamos por esquecer a necessidade da reciprocidade em todo e qualquer relacionamento, pois é ela que dignifica as trocas que são obrigatórias.

A gente aceita o primeiro, o segundo, o terceiro erro. Releva falas maldosas, respostas inexistentes, convites que não chegam. Compreende a as ausências, os atrasos, o não olhar nos olhos. Aceita a voz alterada, a violência velada, a agressividade verbal, o assédio moral. E é assim que o outro tem o passe livre para continuar não sendo gente, não se importando, não retornando, não refletindo, não nos enxergando. Porque o outro então tem a certeza de que estaremos a seu dispor, não importa o que ele faça, diga, seja. Seu capacho – nós, no caso – estará sob seus pés.

Para de arranjar desculpas para o que é injustificável. Para de achar que o outro vai mudar, que foi de momento, que ele deve estar passando por problemas, que aquilo não irá se repetir. Vai se repetir, sim, porque você deixou claro que ele sempre receberá o seu perdão. Ter problemas não dá a ninguém o direito de ser babaca, violento e insensível. Enfim, não romantize a pessoa que você precisa esquecer, retirar de sua vida, de sua história. Romantize a si mesmo, ame-se, valorize-se. Deixa o outro provar se tem merecimento para estar junto de você. É assim e ponto.

***

Imagem de capa: Photo by Anderson Cavalera from Pexels

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

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