Até que o karma nos separe (ou não)

Por Adriana Abraham

Quando iniciamos uma relação amorosa com alguém que julgamos importante, os desafios com os filhos e parceiros de relacionamentos anteriores já são fatores automaticamente ponderados nos primeiros estágios. Cada um sabe qual o seu limite. É preciso ter alcançado maturidade emocional suficiente para saber o quanto estamos dispostos a nos comprometer para estabelecer uma relação saudável.

Por isso, além da preocupação com a compatibilidade moral, física, intelectual, financeira ou qualquer outra que seja considerada importante para os envolvidos no relacionamento, não seria interessante nos preocuparmos também com o carma da pessoa com a qual pretendemos compartilhar nossa vida?

É certo que não se trata de assumir os resultados das ações positivas ou negativas do parceiro, uma vez que isso seria impossível pela lei do carma. Cada indivíduo é responsável pelos efeitos produzidos a partir de seus pensamentos, palavras e ações.

Jetsunma Tenzin Palmo, em uma passagem do livro “No coração da vida”, ensina que o Buda disse que carma é intenção. Isso significa que as sementes que plantamos não são influenciadas pela real ação manifesta, mas pela motivação que há por trás dessa ação.
Logo, num relacionamento amoroso no qual os parceiros pratiquem a atenção plena de forma habitual, ambos se esforçariam para não acrescentar negatividade ao carma do outro de forma intencional. Tal ação desafiaria o nível de desapego e compaixão de um pelo outro.

Lama Tsering Everest, em seus ensinamentos acerca dos venenos da mente, descreve uma situação em que um dos parceiros decide se separar, não apenas por considerar o seu próprio sofrimento com as ações do outro, mas por não desejar que mais carma negativo fosse acumulado pelo parceiro por conta de suas ações.
Quem diria que a maior prova de amor pode ser justamente se afastar de seu parceiro para que suas ações negativas não produzam mais carma. Esse ensinamento budista poderia ser um substituto para os clichês ditos ao final dos relacionamentos, como por exemplo:

– Você vai ficar bem. Pelo menos não vai acumular mais carma negativo.

Os relacionamentos amorosos, vistos sob a ótica budista, começam e terminam dependendo do carma de cada um dos envolvidos. Isso fica mais claro quando os parceiros se dispõem a fazer uma análise pregressa dos fatos, o que geralmente é feito ao final de uma relação.

Chagdud Tulku, no livro “Para abrir o coração”, ensina que o ideal é que nosso objetivo, nos relacionamentos, seja trazer felicidade, e não dor e sofrimento. Não temos tanto tempo juntos antes que a morte nos separe.
Seria então possível considerar a impermanência das relações humanas como fator principal para evitar a separação? Os casamentos mais duradouros seriam aqueles em que ambos sabem que não há tempo a perder com as pequenas desavenças. Se tudo pode acabar a qualquer momento, por que não aproveitar o há de melhor no parceiro?

Vale lembrar que o carma acumulado ao longo de muitas vidas também serve para unir um casal, como bem ensina Chagdud Tulku em passagem do mesmo livro: se houver carma para que o relacionamento seja bem-sucedido, nada impedirá que o casamento dê certo.

Assim, que o carma nunca deixe de nos unir. E, caso nos separe, que seja para o bem de ambos. Amém.

Adriana Abraham

Advogada e escritora, com cursos nas áreas de yoga e meditação. Carioca, residindo atualmente em Brasília.

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