Ana Macarini

Forçar intimidade é invasão de espaço, falta de noção e delírio emocional

Tremenda saia justa é conviver com aquela pessoa que mal te conhece e age como se fosse a sua mais antiga e íntima amiga de infância. A criatura se porta com a desenvoltura de quem partilha do mesmo prato, cama e teto com você, mas no fundo é só alguém que, por pura falta de noção, invade o seu espaço e te coloca numa difícil situação em que, ou você coloca limites claros ou acaba virando cabide emocional.

Intimidade é consequência de uma afinidade solta, prazerosa e natural que brota espontaneamente do convívio, de vivências partilhadas e da sintonia que se constrói a partir da relação de confiança e reciprocidade.

Intimidade é um presente, precisa ser oferecida, não pode ser tomada. Às vezes acontece de nos tornarmos íntimos de alguém assim, com a facilidade de uma prosa leve e cheia de significados. Essas ligações são raras, não é possível prevê-las, planejá-las e muito menos forçá-las.

Forçar intimidade é invadir o espaço do outro buscando satisfazer uma necessidade particular e egoísta. Coagir o outro a uma proximidade artificial acaba provocando muitas vezes o efeito reverso da construção de uma relação verdadeira. Não há ninguém que sinta prazer em permanecer com outro alguém num convívio imposto e desprovido de naturalidade.

Seja em família, num relacionamento amoroso ou de amizade, há que se respeitar o direito do outro a ter seus territórios particulares e íntimos. É dificílimo lidar com alguém que não percebe esses limites por si mesmo e fica arranjando artimanhas e pretextos para nos enredar em suas próprias experiências, como se fôssemos um cenário ou um personagem fictício a serviço de suas vontades.

A beleza dos relacionamentos está na maneira como o convívio vai sendo desenhado, moldado e tecido por tantos pares de mãos e corações quantas forem as pessoas envolvidas. A proximidade é consequência de um bem querer que vai florindo aos poucos, que vai colorindo a vida com a deliciosa junção de diferenças, semelhanças, discordâncias e anuências.

Façamos por merecer o desejo daqueles que nos cercam em nos receber em seus espaços. Tenhamos a sensibilidade necessária para perceber o que é escassez de bom senso, excesso de exposição e invasão de privacidade. Sejamos generosos, sem deixarmos que a nossa vaidade use essa generosidade como disfarce para interferir nas escolhas alheias. Olhemos para a delicadeza do equilíbrio nas relações, com a devida reverência de alguém que entra na vida do outro como quem pisa em território sagrado, pois sagrado é observar que respeitar a intimidade é, antes de tudo, uma legítima forma de amor ao próximo.

Imagem de capa: Estrada Anton/shutterstock

Ana Macarini

"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"

Recent Posts

O primeiro animal que você enxergar aqui revela se você usa mais o lado direito ou esquerdo do cérebro

Algumas imagens parecem simples até o cérebro resolver complicar tudo, como costuma fazer quando encontra…

8 horas ago

Menino de 5 anos sobrevive a ataque brutal de dois cães e é chamado de “monstro” em público

Ryder Wells tinha menos de dois anos quando sofreu ferimentos que exigiriam dezenas de cirurgias…

9 horas ago

Esta ex-estrela mirim se tornou dependente, mas conheceu seu futuro marido na igreja, e agora eles estão juntos já 41 anos

Durante os anos 1970, Maureen McCormick era um dos rostos mais conhecidos da televisão americana.…

11 horas ago

“Bicho nojento”: Os donos foram escovar o cachorro após o passeio e encontraram algo que não esperavam

Escovar o cachorro depois de uma caminhada costuma ser uma tarefa simples, especialmente para animais…

11 horas ago

Ela quase não conseguiu bancar os estudos, mas alguém famoso decidiu ajudá-la sem sequer conhecê-la

Antes de se tornar presença frequente em grandes produções de Hollywood, Jessica Chastain cresceu em…

11 horas ago

Ele foi um dos rostos mais famosos dos anos 70, mas seus últimos anos foram muito diferentes

No começo dos anos 1970, Brian Connolly dificilmente passaria despercebido. Com os cabelos loiros, roupas…

14 horas ago