Aprendi a não fazer a ninguém o que não quero que façam ao meu filho.

A paternidade nunca foi o único meio de tornar as pessoas melhores.
Há um caminhão de outras formas, um milhão de outros caminhos para alguém tomar um rumo na vida. Mas eu tenho a impressão de que a experiência de cuidar de uma criança, de amá-la e protegê-la e educá-la para o mundo é uma das mais infalíveis.

Ser mãe e ser pai só não melhoram quem exibe um quadro irreversível de maldade crônica mesmo. Só não despertam a bondade em quem é mau por convicção. Tirando esses casos irrecuperáveis, toda gente evolui de alguma sorte quando faz ou quando adota uma outra pessoa e assume a tarefa custosa de formá-la para a vida.

Se o exercício mais difícil de toda a humanidade é aprender a amar o outro tanto quanto amamos a nós mesmos, tornar-se pai ou mãe é o modo mais fácil de perceber que importante mesmo é aquele que tem todo o amor que há em nós e mais um pouco.

Quem tem amor por seus filhos está a um pulo de perceber o óbvio: todo ser vivo que caminha neste mundo foi um dia uma criança carecida do amor de seus pais. Esse amor que nem sempre veio e se veio nem sempre ficou. Não importa. Quem ama seus filhos tem tudo para aprender a olhar o resto do contingente do planeta do jeito mais verdadeiro e simples: como meros filhos de alguém.

Daqui de meu lugar no mundo, vou me habituando a olhar quem passa por mim como a pessoa mais querida na vida de um pai e de uma mãe. É o que eu desejo a você, a mim e a toda gente. Que sejamos amados como eu amo meu filho, o homenzinho que me ensinou a não fazer a ninguém o que eu não quero que façam a ele.

Peço a Deus que me permita morrer bem velho, lá pela casa dos cem anos, e que meu filho já senhor de idade seja o último sujeito a quem eu olhe nos olhos. Cansado desse honesto exercício de viver, não terei outro trabalho senão assistir a uma expressão de menino agradecido retornar a seu rosto maduro de avô. Em nossa conversa final, não diremos nada e entenderemos tudo, dois velhos em uma família de gente amorosa e feliz, incapaz de fazer aos outros o que não faria a seus filhos. Pessoas boas na memória de quem eu hei de repousar tranquilo, no mais generoso e simples exercício de eternidade.

Imagem de capa: KonstantinChristian/shutterstock

André J. Gomes

Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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