Por Josie Conti

 “Aprendi muitas coisas na faculdade de medicina, mas a mortalidade não foi uma delas.”

É com a frase acima que o médico cirurgião e escritor americano Atul Gawande introduz o seu novo livro “Mortais- Nós, a medicina e o que realmente importa no final “, da Editora Objetiva, lançado em junho de 2015 no Brasil. Escrito em tom pessoal e repleto de histórias de família e trabalho, o livro nos permite vivenciar a dor, as perdas e as consequências das escolhas finais dos profissionais, do paciente e dos familiares frente à iminência da morte.

Como escritor, Atul Gawande sabe que só o que é emocionalmente significativo fica gravado e ressoa na memória do leitor. Com muita delicadeza, coloca-nos em vivência compartilhada nos dramas que relata e questiona-nos: frente a uma doença incurável, devemos usar ilimitadamente os recursos da medicina existentes para prolongar o tempo em que um corpo permanece respirando, mesmo que ligado a aparelhos, ou deveríamos nos focar na qualidade de vida restante?

É fato que os médicos são formados para salvar vidas. Para eles, a competência, a segurança e a identidade do profissional, na maioria das vezes, está relacionada a não deixar que o paciente morra. Mas, será que o prolongamento da vida com o uso de aparelhos, alguns tipos de quimioterapia ou mesmo cirurgias agressivas não seriam “novas formas de torturas físicas a que submetemos nosso paciente?”, diz ele em um trecho do livro.

Como profissional da saúde, sempre me surpreendi com o abismo existente entre a teoria e realidade profissional. Nessa área creio que são raros os casos de pessoas que realmente têm noção do que encontrarão do lado de dentro de um consultório ou de um hospital. Os maiores exemplos de tratamento desumanizado que presenciei como pessoa vi lidando com médicos que atuavam sob uma falsa couraça de poder. Seria a arrogância e a prepotência, tantas vezes encontrada na classe, um mecanismo de defesa para lidar com as próprias inseguranças frente a limitações reais da prática profissional?

Mesmo filho de médicos, o próprio Atul Gawande confessa que não imaginava como era viverciar rotineiramente a limitação, a falta de recursos terapêuticos e, principalmente, a morte real, consumada. Como lidar com a situação quando nada mais pode ser feito?

Um dos grandes diferenciais do autor é a sinceridade e a dignidade com que desbanca a onipotência da profissão ao analisar os aspectos emocionais dos envolvidos, ao falar da NEGAÇÃO cultural que o mundo moderno desenvolveu enquanto a medicina, o saneamento básico e outros fatos históricos permitiram o aumento da expectativa de vida das pessoas.

Sua mensagem é pela revisão dos gastos médicos realizados em tratamentos desnecessários, é pelo olhar para um paciente que precisa ser informado sobre sua real condição e, mais do que tudo, sobre a priorização da qualidade e não do tempo de vida de uma pessoa.

“Mortais- Nós, a medicina e o que realmente importa no final “

Josie Conti

JOSIE CONTI é psicóloga com enfoque em psicoterapia online, idealizadora, administradora e responsável editorial do site CONTI outra e de suas redes sociais. Sua empresa ainda faz a gestão do site Psicologias do Brasil. Contato para Atendimento Psicoterápico Online e EMDR com Josie Conti pelo WhatsApp: (55) 19 9 9950 6332

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