Ana Macarini

Alguns vazios são absolutamente cheios de histórias

O que seria de nós sem essa mistura, meio louca, meio linda, e meio atrapalhada, de tantas venturas e desventuras que vão nos arquitetando ao longo dessa jornada?

Amores que deram certo, amores que não chegaram a acontecer, amores com os quais vivemos a sonhar, até aqueles que não deram em nada, ou deram completamente errado… É esse o vento em nossas velas. É isso que nos faz navegar.

De nada vale um dia se não amamos as coisas que temos, o trabalho que escolhemos, os amigos que acolhemos, os planos que tecemos, as vitórias que merecemos e os erros que cometemos. Ainda que nada seja pra sempre. E não é. Ainda, assim, só terá valido a pena qualquer coisa que nos tenha feito sentir amor.

Amor não é só feito de encontros e histórias de romances. Amor é também desencontrar-se do idealismo e das projeções. Abrir espaço, no peito e na vida, para relações que vão além dos finais felizes.

E quem é que quer um final feliz, afinal de contas?! O que a gente quer é que a nossa história seja escrita em capítulos intermináveis. Que haja outros motivos novos pelos quais a gente queira sair da cama, sair na rua, sair do prumo!

E é bom que a gente entenda que haverá dias assim, assim… meio sem sal e sem açúcar. Dias morninhos. Dias de calmaria. Dias que podem oferecer espaço para pausas bem-vindas. Reticências. Vírgulas.

Pausas são aqueles intervalos de gozo ou dor, em que somos agraciados pela vida com algumas chances de aproveitar a própria companhia.

Parar. Respirar. Olhar para os vazios com a mesma amorosidade que se olha para as conquistas ou os sonhos. Páginas em branco podem ser tão lindas quanto aquelas preenchidas de aventuras.

Há vazios que são absolutamente cheios de história. Esses espacinhos vagos, desocupados. Momentos da vida que nos ensinam a silenciar, a não dizer, a observar. Histórias diáfanas, incompletas, singulares.

Parar. Respirar. Dar a si mesmo o tempo necessário de absorver o que foi sorvido na avidez de ser feliz; na ganância de abraçar o mundo sem medir os braços; na voracidade de viver tudo de uma vez, como se amanhã nunca fosse chegar.

O que já foi, é lição dada. Se temos, ou não, a sabedoria de aprender, fica na nossa conta. O que está ao nosso alcance é ler nossas próprias histórias, com o desprendimento necessário para deixar ir o que não cabe mais, e oferecer páginas em branco para que histórias diferentes possam ser escritas.

O que nos cabe é a imensidão de novas e insondáveis oportunidades. Outros erros. Quem sabe alguns acertos. E a certeza absoluta de que é no improvável que reside o gosto da vida. Porque sabores previsíveis acabam perdendo a graça e lições que se repetem não servem para quase nada.

Imagem de capa meramente ilustrativa: cena do belíssimo filme “Out of Africa”.

Ana Macarini

"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"

Recent Posts

Há um rosto escondido no desenho do moinho e ele NÃO aparece onde você olha primeiro

Uma antiga construção de pedra, uma roda de moinho movimentada pela água e um riacho…

11 horas ago

Quantos cães aparecem nesta imagem? Sua resposta corresponde a uma faixa de idade mental neste teste

Uma imagem aparentemente simples, formada por silhuetas de cães em preto e branco, está desafiando…

11 horas ago

Nem piolho, nem ferida: o pequeno visitante que pode aparecer na cabeça das crianças (e o pais precisam saber!)

Ao separar os cabelos de uma criança, encontrar um pequeno animal preso ao couro cabeludo…

13 horas ago

Duas pessoas atravessam o rio neste desafio visual, mas há um terceiro personagem difícil de notar

Uma ilustração em preto e branco, aparentemente simples, esconde um detalhe que pode passar despercebido…

14 horas ago

Eles se conheceram no auge da fama e enfrentaram até a investida de um galã de Hollywood

Em 1º de setembro de 2026, Barry Gibb teve dois motivos especiais para comemorar: completou…

14 horas ago

Os sintomas pareciam de gripe, até que o pai ouviu algo muito estranho na voz do filho de 21 anos

Aos 21 anos, Lucas Martin havia acabado de concluir a faculdade na Universidade de Liverpool,…

5 dias ago