Vanelli Doratioto

Acredite, a vida só dá aquilo que a gente consegue carregar

Imagine que um dia, ao acordar, você encontre em sua cabeceira um rechonchudo envelope com uma mensagem. Dentro desse envelope, em letras garrafais, toda sua vida futura está descrita em detalhes, sem confetes ou enfeites, com todas as alegrias e tristezas, com todos os acertos e equívocos, com todas as expectativas e decepções.

Então, você lê e relê a carta com bastante atenção e, com certeza, levanta arrasado da cama. Levanta querendo sumir desse planeta para um outro onde não consiga se lembrar das previsões ruins da carta.

Tudo tem seu tempo e é nesse tempo que aprendemos as nossas mais preciosas lições. Com a fraqueza valorizamos a força, com a doença entendemos a importância da cura, com a ruptura nos é ensinado o valor do perdão e do recomeço.

No filme “Dezesseis Luas” o personagem Ethan vai até a casa da nova aluna de seu colégio, Lena, e lá conhece o tio da moça, Macon, um homem enigmático que sentado ao piano pergunta ao jovem quais são seus planos para o futuro. Em pouco tempo, como se hipnotizado, Ethan fala de sua vida toda, a qual terminaria com ele varrendo a calçada de um bar. Uma vida marcada por desencontros e desilusões é o que sai da boca do rapaz. Logo depois ele sai do transe e esquece tudo que disse.

O filme não é um exemplo, pois extrapola na previsão do pior, mas mostra como em determinados momentos ainda somos imaturos para lidar com questões difíceis, questões que poderiam ser superadas em outro ponto da vida. Se ele se lembrasse do que disse com certeza sairia correndo, desnorteado, sem olhar para trás.

Dessa forma se por ventura algo está acontecendo em nossa vida, algo pelo qual não esperávamos, certamente essa situação veio no momento certo, pois somente agora estamos preparados para passar por ela.

Acredito que a vida nos dá apenas aquilo que podemos carregar. Muitas vezes olhamos para trás e pensamos “Nossa, foi difícil”. Contudo, superamos e cá estamos. A mesma coisa podemos dizer para coisas muito boas. Precisamos ter maturidade para aceitá-las também.

No bom ou no ruim é a maturidade emocional que nos fará continuar em frente. Cada coisa a seu tempo pode nos guiar para o melhor. Imagine se aos cinco anos você soubesse de todas as coisas pelas quais passou até agora? Certamente teria perdido noites de sono preocupado não com o bicho papão, mas em como se preparar para o futuro. Entretanto no decorrer da vida imprevistos surgiram, assustaram, deixaram lições, exigiram bastante, mas passaram.

A vida é como é, na hora certa, na medida certa, no ponto exato. Flores nascem em fendas do asfalto, contrariando todas as probabilidades, guiadas por sua natureza instintiva de resistir e florir.

Só depende da gente acreditar no melhor, acreditar que merecemos vencer as dificuldades tirando delas lições para a vida. O ruim, se vier e quando vier, certamente acontecerá quando formos grandes o bastante para lidarmos com ele. O bom também.

Tudo passa e é para frente que a gente vive. Sem previsões futurísticas detalhadas, mas com a certeza de que podemos muito mais do que pensamos poder.

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Vanelli Doratioto

Vanelli Doratioto é especialista em Neurociências e Comportamento. Escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.

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