Abra os olhos! Não perca os detalhes poéticos nas cenas da vida

É fim de tarde de outono, há uma nuvem enorme cor de rosa no céu e tudo em volta dela é amarelo ouro, um céu de baunilha brilha em cima de sua cabeça e você não vê. Absorvido pelo celular, perdeu o show gratuito.

As paredes descascadas daquela casa antiga que você passa todos os dias formam desenhos de bichos e rostos; a janela quebrada da mesma casa é uma moldura para um jardim selvagem, mas você, imerso em preocupações, nunca olhou para o lado, não perde tempo com terrenos baldios.

No caminho ainda, há uma porta aberta para um brechó antigo e uma senhora idosa, talvez a dona do estabelecimento, toma chá numa cadeira de balanço, quase tornando-se parte do insólito lugar. Mas você não se interessa por lugares tão escondidos, roupas tão velhas e pessoas que já saíram de moda.

Na estrada para a praia, você no carro olhando pela janela e tudo parece monótono, mas as várias espécies de plantas – samambaias, trepadeiras, bromélias… – se emaranham, crescem, sobem umas nas outras, confundindo-se, criando um mutualismo loucamente brasileiro em vários tons de verde e ainda por cima nasce uma flor roxa no meio. Mas você não viu, porque, impaciente, matava o tempo jogando no celular.

Seu amigo fez a janta, colocou folhinhas de manjericão colhidas na hora em cima do simples macarrão com molho vermelho, você nem olhou a refeição que engolia quase sem paladar. Seu amor beijou seus olhos e suas mãos quando você se queixou da canseira do trabalho, mas você não tinha mais energia para sentir e perceber o gesto de carinho.

Uma criança cisma em chamar a sua atenção, subindo e descendo o rosto no banco do ônibus a sua frente, você quase se distrai, mas respira fundo, expira a monotonia que vem de dentro e volta a se embrenhar nas nuvens densas e importantes dos seus pensamentos.

Desenharam um coração com chocolate em pós no seu cappuccino, mas você só consegue ficar mergulhada na lembrança do seu coração machucado.

Tanta coisa a ser resolvida, tanta coisa a ser digerida, é preciso foco no que importa, é preciso seguir rápido, é preciso pensar no amor, no trabalho, nas conquistas a serem atingidas, nas frustrações de não ter chegado aonde queria ainda, é preciso não se deixar perder nas pequenas coisas, o tempo urge, a vida é curta, as pessoas se atropelam, a corrida é injusta, a canseira toma seu corpo e sua alma. É preciso ver a vida em preto e branco por todos os lados cegos que se olha até que, depois de muita luta, você conquiste finalmente o direito de se libertar e apreciar as singelezas da vida. Se é que até lá seu olhar saberá encantar-se novamente.

Mas agora, a vida, os detalhes, as pequenas belezas… ficam para quem tem tempo de se permitir ser criança para sempre. Não é mesmo?

Imagem de capa: HBRH/shutterstock

Clara Baccarin

Clara Baccarin escreve poemas, prosas, letras de música, pensamentos e listas de supermercado. Apaixonada por arte, viagens e natureza, já morou em 3 países, hoje mora num pedaço de mato. Já foi professora, baby-sitter, garçonete, secretária, empresária... Hoje não desgruda mais das letras que são sua sina desde quando se conhece por gente. Formada em Letras, com mestrado em Estudos Literários, tem três livros publicados: o romance ‘Castelos Tropicais’, a coletânea de poemas ‘Instruções para Lavar a Alma’, e o livro de crônicas ‘Vibração e Descompasso’. Além disso, 13 de seus poemas foram musicados e estão no CD – ‘Lavar a Alma’.

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