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A vida que eu quero ter!

A vida que eu quero ter passa bem longe do furor do dia-a-dia,  segue por uma estradinha onde não cabe tanta ambição nem tem as curvas dos humores.

A vida que eu quero ter não deve começar no final da vida, quando tudo estiver no seu lugar, já que não há lugar certo para nada, nem garantias ou certezas.

A vida que eu quero ter não se encaixa com tudo o que desejo comprar, com tudo o que preciso conquistar, com uma fração do que eu já consumi.

A vida que eu quero ter não combina com tanto barulho – dentro e fora de minha cabeça –  não depende da  cor do meu esmalte, não acaba nos limites do meu território.

A vida que eu quero ter não é a vida que eu acho que preciso ter, para acompanhar o fluxo, para me inserir no contexto, para garantir presença nos acontecimentos.

A vida que eu quero ter é aquela vida que me vem aos pensamentos quando fecho os olhos, aquela vida que me convida a dar menos valor aos consumos e mais importância às conversas e às risadas.

A vida que eu quero ter me diz todos os dias que mais um dia já se foi e eu o usei com a vida que eu acho que preciso ter, matando leões e esquecendo de olhar para o céu.

A vida que eu tenho hoje anda em conflito com a vida que eu quero ter, pois desapego é uma coisa difícil de empreender. A vida que eu tenho hoje já me permite não ver televisão, mas ainda não me deixou desligar o telefone para ouvir o barulho do mar.

A vida que eu acho que preciso ter me cobra a cada hora mais um conquista. Me castiga e submete, provocando comparações e competições.

A vida que eu quero ter me diz que eu só preciso pagar minhas contas e ter tempo. Tempo para viver. Juntar apenas forças, cultivar saúde e equilíbrio, prestar mais atenção na brisa do que nas buzinas.

A vida que eu quero ter não engana e já me avisa que haverá dores, mas,  ao mesmo tempo me alerta que, quando se vive a vida escolhida, até as dores são mais legítimas e se vão com o passar da vida.

Um brinde à vida!

Imagem de capa: eldar nurkovic/shutterstock

Emilia Freire

Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

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