A ÚLTIMA PEDRA
Daqui não se vê o céu
e a piteira de lata,
deixa um gosto que arde,
da fumaça que invade e faz na mente um véu.
Minha vontade se acaba, o tempo acabou,
o corpo desaba, a sorte está feita,
na minha boca o fel, o gosto ruim da sarjeta.
Daqui não se vê o céu
não se vê o céu, não se vê a luz
e lá se vem dona morte fazer a colheita
de machado e capuz.
Arranca madeira, faz mais uma cruz,
crucifica esse otário que perdeu a razão,
no mesmo calvário um terceiro ladrão.
Meu corpo desaba, a garganta está seca,
de tanta pressão o meu peito arrebenta.
Não me peça uma prece, não me dê sua unção,
minha sede não passa com sua água benta.
Daqui não se vê o céu,
não vê anjo no céu, tem um homem no chão.
Estou pregado de cravo na sua calçada
e no ofício de escravo, serviçal do meu vício,
não fui quase nada, meu pecado é a ilusão.
Daqui não se vê o céu,
não tem caminho pro céu,
minha alma se esvai, meu corpo padece,
sou um anjo que cai enquanto faço uma prece:
deus me livre e me valha
do meus pensamentos, do fio da navalha
do frio dessa vala,
dos homens e das leis do mundo canalha.
Daqui não se vê o céu,
não se vê a lua,
só meu corpo encolhido num canto da rua.
E se o mundo se acaba,
antes que anoiteça
terei sete palmos de chão na cabeça.
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