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A Netflix acaba de lançar um romance coreano doce por fora e emocionalmente cruel por dentro

“Se Esse Amor Desaparecesse Hoje” parte de uma ideia simples e bem cruel: como se apaixonar quando o dia seguinte apaga tudo. Han Seo Yun (Shin Si-ah) sofre de amnésia anterógrada depois de um acidente e, para ela, cada manhã funciona como um “recomeço” involuntário — a memória volta sempre ao ponto anterior ao trauma.

O resultado é uma vida montada em lembretes, bilhetes, cadernos e rituais pequenos que tentam manter as coisas no lugar.

É nesse cenário que Kim Jae Won (Choo Young-woo), um colega de escola, começa a se aproximar. Ele entende rápido a regra do jogo: para estar presente, precisa aceitar que será “novo” para ela todos os dias.

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Então, em vez de prometer soluções, ele vira constância — alguém que aparece, conversa, ajuda a organizar o cotidiano e insiste com paciência quando qualquer vínculo poderia desandar por puro esquecimento.

A romance cresce justamente nesse detalhe prático. Como não há acúmulo de lembranças, cada cuidado vira algo que precisa ser reconstruído: um encontro, uma piada interna, um momento de confiança.

O afeto não falta; o que falta é continuidade. E é aí que o filme acha seu tom, porque transforma gestos comuns (esperar na saída, dividir um lanche, caminhar sem pressa) em eventos com peso emocional real.

Só que Jae Won não entra na história “limpo”. Ele guarda uma informação importante e escolhe adiar a verdade para esticar a sensação de normalidade entre os dois. A intenção não soa como maldade gratuita, e sim como medo de perder o pouco que funciona.

Ainda assim, a dinâmica fica desigual: enquanto um vive acreditando estar no controle do próprio dia, o outro administra o que pode ou não ser dito — e isso muda o tipo de intimidade que se forma.

Na direção, Kim Hye-young evita a armadilha de transformar tudo em cena-choro. O filme prefere acompanhar o tempo por repetições, cortes suaves e encontros que se parecem — justamente para que o público sinta a rotina “reiniciando” com a protagonista.

Os cenários ajudam: a cidade litorânea, os cafés e a escola aparecem como lugares acolhedores, quase como se o mundo ao redor tentasse dar uma trégua para quem está sempre começando de novo.

A química do casal também vai pelo caminho mais convincente: aproximação lenta, constrangimentos pequenos, risadas em situações bobas e aquele cuidado meio tímido que muita gente reconhece em doramas mais contidos.

Dá para entender por que a torcida vem cedo — não por promessas grandiosas, mas porque eles se comportam como dois jovens tentando segurar um pedaço de paz do jeito que dá.

Ainda assim, o roteiro faz escolhas questionáveis ao reduzir a autonomia de Seo Yun em momentos decisivos.

Quando ela é mantida fora de decisões que são sobre a própria vida, o filme toca num ponto sensível: proteção demais pode virar controle, mesmo quando vem “por amor”. E o mérito aqui é não fingir que isso é inofensivo — a conta emocional aparece na tela, sem disfarce.

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Gabriel Pietro

Redator com mais de uma década de experiência.

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