30 pérolas de Mia Couto, no livro Vozes Anoitecidas

Por Nara Rúbia Ribeiro

Para que conheçamos um pouco da luminosidade da obra “Vozes Anoitecidas”, de Mia Couto, colhemos e listamos aqui 30 pérolas cujo brilho, por si só, já valeria a leitura de todos os contos ali contidos.

1 – Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.

2 – Na travessia dessa fronteira de sombra escutei vozes que vazaram o sol. Outras foram asas no meu voo de escrever.

3 – A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigelas, cestas, pilão. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho.  No conto “A fogueira”

4 – Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. No conto “A fogueira”

5 – Estavam ali todos, os filhos e os netos. Estava ali a vida a continuar-se, grávida de promessas. Naquela roda feliz, todos acreditavam na verdade dos velhos, todos tinham sempre razão, nenhuma mãe abria a sua carne para a morte. No conto “A fogueira”

Nota: Mia Couto, já no texto de abertura mostrou-nos a que veio a sua escrita. Veio remeter-nos, segundo afirma José Craveirinha no prefácio do livro à edição portuguesa, “para enredos e tramas cuja lógica se mede não poucas vezes pelo absurdo, por um irrealismo, por conflitantes situações, pelo drama, o pesadelo, a angústia e a tragédia.” E afirma: “No entanto, vale salientar, fiel ao clima. Um dado clima. Isso distingue o escritor do escrevente e diferencia a prosa do prosaico”.

6 – Não era o rio que afundava suas palavras: era o fruto vazando dos ouvidos, dores e cores. Em volta tudo fechava, mesmo o rio suicidava sua água, o mundo embrulhava o chão nos fumos brancos. ” O dia em que explodiu Mabata-bata”

7 – Quando regressava da pescaria, não tinha mais defesa para os olhos da mulher e dos filhos que se espetavam nele. Pareciam olhos de cachorro, custava admitir, mas a verdade é que a fome iguala os homens aos animais. “Os pássaros de Deus”

8 – Está ver o caçador, maneira que ele faz? Prepara a zagaia momento que ele vê a gazela. Enquanto não, o pescador não pode ver o peixe dentro do rio. O pescador acredita uma coisa que ele não vê. “Os pássaros de Deus”

9 – Sim, que a verdadeira bondade não se mede em tempo de fartura mas quando a fome dança no corpo dos homens. “Os pássaros de Deus”

10 – Plácido, o rio foi ficando longe a rir-se da ignorância dos homens. “Os pássaros de Deus”

11 – Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi um só. “Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar?”

12 – A  luz emagrecia. Restava só um copo de céu. “Asas no chão, brasas no céu”

13 – Mas a morte é uma guerra de enganos. As vitórias são só derrotas adiadas. “Asas no chão, brasas no céu”

14 – Os olhos dela estavam amarrados na distância, olhando o lado cedo do escuro. “Asas no chão, brasas no céu”

15 – Agora já é tarde. Só reparo o tempo quando já passou. “Vou aprender a ser árvore”

Eis um excerto do texto de abertura

16 – Sou um cego que vê muitas portas. Abro aquela que está mais perto. Não escolho, tropeço a mão no fecho. “Vou aprender a ser árvore”

17 – Minha vida não é um caminho. É uma pedra fechada à espera de ser areia. “Vou aprender a ser árvore”

18 – Um homem salva-se se é vontade da vida. Os outros são só o alimento dessa vontade. “De como o velho Jossias foi salvo das águas”

19 – Numa terra tão pequena só se passa o que se passa. O acontecimento nunca é indígena. Chega sempre de fora, sacode as almas, incendeia o tempo, depois, retira-se. “A menina de futuro torcido”

20 – O mundo tem sítios onde para e descansa sua rotação milenar. “A menina de futuro torcido”

21 – (…) um fruto não se colhe às pressas. Leva seu tempo, de verde-amargo até maduro doce. “A menina de futuro torcido”

22 – Orgulhoso, respondia aos apressados: esperar não é a mesma coisa que ficar à espera. “A menina de futuro torcido”

23 – A verdade, afinal, é filha mulata de uma pergunta mentirosa. “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”

24 – Cajú é sangue do sol pendurado, doce fogo de bebermos. “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”

25 – Ele continuou parado, sentinela de medos, analfabeto da felicidade. “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”

26 – E ali ficou imóvel, soterrado, dormindo no subúrbio da morte, expulso da luz e do ar. Hora de tempo, penso no nunca mais. “De como o velho Jossias foi salvo das águas”

27 – Lenha? A madeira é lenha antes mesmo de arder. Ser lenha, compreendeu, é morrer assim só, sem ninguém para nos chorar. “De como o velho Jossias foi salvo das águas”

28 – Um homem chora? Sim, se lhe acordam a criança que tem dentro. “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”

29- Ela chora, nem esconde a cara. A lua trança-lhe as lágrimas. Nascem pérolas. “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”

30 – Estava ali, na chuva da luz, apagando as estrelas. “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”.

Nara Rúbia Ribeiro

Escritora, advogada e professora universitária.

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