Ivonete Rosa

Virou moda ferrar com o emocional do outro, e responsabilizá-lo pelas expectativas

A frase “cada um é responsável pelas expectativas que cria” viralizou nos últimos tempos, especialmente, na era das redes sociais. Ela já virou uma espécie de jargão nos mais variados contextos: em posts, mensagens, e chega a ser uma admoestação na fala de muitos blogueiros do ramo de saúde mental espalhados pela web.

Ocorre que eu discordo, em partes, dessa afirmação. Inclusive, tenho percebido muitas pessoas usando essa frase como escudo para justificar o mal que têm causado a outras, intencionalmente.

Vou explicar: muitas pessoas se aproveitam da vulnerabilidade emocional de outras e se aproximam, fazem promessas, se comportam como se fossem bem-intencionadas, tiram proveito, e depois se revelam da pior maneira possível ou simplesmente desaparecem. E se a vítima esboça o descontentamento dela, acaba ouvindo: “foi você quem criou expectativas, não sou responsável pelo o que você sente”.

Percebe a situação? É lógico que cada um é responsável pelo a expectativa que alimenta, contudo, quem agiu de má fé também tem responsabilidades sobre o estrago que causou no outro. Porque há uma diferença entre alguém se iludir por conta própria e se iludir porque recebeu todo o reforçamento para isso.

Sendo mais específica, você pode frustrar alguém sem ter essa intenção, como pode, também, detonar a saúde emocional do outro usando de má fé, falando e se comportando de forma a nutrir sentimentos que, de antemão, você sabe que não vai corresponder. Percebe a diferença? Eu estou falando de intenção, de premeditação, não estou falando de equívoco, de mal-entendido.

Diante de tudo isso, eu acho que nos responsabilizarmos pelos danos que causamos ao outro. Tirar o corpo fora e simplesmente usar esse jargão “as expectativas foram suas” é uma forma covarde de brincar com as fragilidades alheias e tentar sair ileso de qualquer culpa.

Na dúvida, basta não fazer ao outro o que não gostaria de receber. Não tem segredo. Num contexto desses, temos dois sujeitos: um responsável por acreditar, e outro que se fez passar por alguém confiável. Ambos são responsáveis. Fim.

Photo by Toni Ferreira Ph from Pexels

Ivonete Rosa

Sou uma mulher apaixonada por tudo o que seja relacionado ao universo da literatura, poesia e psicologia. Escrevo por qualquer motivo: amor, tristeza, entusiasmo, tédio etc. A escrita é minha porta voz mais fiel.

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