Gustl Rosenkranz

Às vezes, precisamos lamber o chão para saber que gosto tem a lama

Sobre nossa teimosia de nos comportarmos de forma nociva a nós mesmos, o sofrimento extremo que ela pode causar e a chance de libertação que esse sofrimento representa.

Observo, não somente na vida dos outros, mas também na minha própria, que às vezes precisamos sofrer para aprender e mudar nosso comportamento.

Recordo-me de um colega de trabalho que fumava muito, muito mesmo. Qualquer tentativa de conversar com ele sobre isso era imediatamente rebatida, pois ele não queria saber. Ele sofria com o fumo, tossia muito, dormia mal, mas não parava de fumar ou pelo menos reduzia o número de cigarros diários. E dizia que iria continuar fumando e que isso não era da conta de ninguém.

Um dia, caminhávamos juntos, voltando do almoço e tivemos que subir uma escada. No meio da subida, ele parou, se apoiou na parede e depois caiu como uma jaca madura escada abaixo. Eu corri para ajudá-lo e ele estava consciente, mas tinha dificuldade de respirar, sentia-se fraco e reclamava de dor no peito, nas costas e no braço. Chamei uma ambulância e ele foi levado para o pronto-socorro. Fiquei sabendo depois que meu colega, aos 36 anos, tinha tido um infarto.

Um tempo depois, quando ele voltou a trabalhar, me contou a conversa que teve com o médico, que havia deixado claro: se ele não parasse de fumar, não viveria por muito mais tempo. Ele nunca mais tocou em um cigarro e admitiu que morria de medo de passar novamente pelo que passou. Aqui o sofrimento extremo ajudou.

Em outras palavras, ele precisou afundar, ir até o fundo mesmo, e lamber o chão para sentir o gosto da lama. Só assim ele aprendeu, abriu mão da insistência de fumar e mudou seu comportamento nocivo a si mesmo. E esse é só um exemplo de muitos que conheço.

Sei de gente que come, come e come, se entope de gordura e açúcar, engorda, se sente “feia”, tem problemas digestivos, muitas vezes também de pele, sofre com dor nas articulações, mas nada disso basta. Essa gente, mesmo sofrendo, continua comendo e comendo e comendo. Parece que se reluta em aprender enquanto o sofrimento não for grande o suficiente, enquanto a comilança e os abusos não se manifestarem na forma de pressão alta, diabetes ou outras enfermidades.

Tenho um amigo que bebe muito. Na verdade, ele bebe sempre, todos os dias. Uma cerveja no almoço, mais um chope (ou vários!) com amigos antes de voltar para casa, um vinho antes de dormir e assim por diante.

Seu consumo de álcool é extremamente alto e ele sofre com isso. Já teve problemas no trabalho, já teve confusão no trânsito – até atropelou uma pessoa (por sorte, só ferimentos leves) – e tem problemas de saúde por causa da bebida, mas você acha que ele aprendeu? Não, ainda não. Pelo jeito, o sofrimento dele ainda não foi suficiente para isso. Conversar com ele sobre o assunto de nada adianta. Ao invés de reconhecer seu vício e que precisa de ajuda, ele preferiu ir para um terreiro de candomblé para tirar o mau-olhado, já que atribui os problemas que tem à inveja alheia, o que é sempre bem mais fácil que corrigir o próprio comportamento. Parece-me que ele precisa de mais sofrimento para perceber o mal que está fazendo a si mesmo.

É como se fôssemos crianças teimosas, que insistem em brincar com fogo e não param com isso até o dia que se queimam. É como se fôssemos cachorros que adoram roer fios elétricos, só parando no dia que tomam um choque forte e um susto ainda maior.

Sim, insistimos em dar cabeçadas na parede e repetimos comportamentos que nos fazem mal, muitas vezes sabendo que são ruins, mas prosseguimos assim mesmo porque aquilo que nos leva a tais comportamentos ainda é mais forte que o sofrimento causado.

Parece-me que, em certos casos, principalmente quando nosso comportamento nocivo já nos acompanha por muitos anos ou mesmo por toda a vida, precisamos sofrer extremamente para entender que algo precisa ser mudado. Sofrimentozinhos não bastam. O sofrimento tem que ser forte!

O bom disso é que um momento de extremo sofrimento pode ser uma chance de finalmente nos libertarmos de coisas que nos prejudicam, nos aprisionam e nos impedem de viver uma vida saudável e feliz.

O ruim disso é que é perigoso, pois nossa teimosia pode ser tão grande que termine demorando muito até percebermos o problema e, no final das contas, pode ser tarde demais.

O que pode ajudar aqui é manter os olhos abertos, observar-se bem e ter a coragem de “puxar o freio de mão” ainda cedo, antes que a coisa fique feia. Sofrimento extremo pode nos fazer crescer, mas crescemos ainda mais quando somos inteligentes e corajosos o suficiente para reagir a tempo e evitá-lo.

Imagem de capa: Kichigin/shutterstock

Gustl Rosenkranz

Apaixonado por palavras, viciado em escrever, sem luvas, tocando no assunto, porque gosta e porque precisa, sobre a vida e tudo que a toca.

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