Jocê Rodrigues

Vem, vamos nocautear os costumes

Essa noite seremos só nós três. Você, eu, e a velha lua no céu.

Hoje essa cidade será nossa. Você com seu vestido decotado e eu com meu jeans surrado e camisa mal passada. Vamos nocautear os costumes. Cantar alto; rir mais alto ainda. Você com voz melodiosa, eu com pigarros e rouquidão.

Vamos pintar a cidade com a cor da nossa felicidade imprudente. Passar uma camada de tinta de cor viva sobre a superfície cinza da vida de quem não sabe como é ser nós dois. Gente que desconhece a regalia de partilhar cama, mesa e banho como amigos, amantes e companheiros. Que não sabe aliar desejo e carinho, tesão e amizade.

A eles ainda falta a liberdade de poder ser tudo isso e mais um pouco.

Todo casal apaixonado deve ser um pouco transgressor. Quebrar regras faz parte das delícias da intimidade. Desafiar convenções é quesito essencial para qualquer casal que queira durar mais que uma ou duas estações

A paixão acaba quando termina a transgressão. Quando o que era pra ser espontâneo passa a ser programação, com hora marcada e momento certo. Aí tudo passa a ser um ritual organizado e o brilho do improviso se perde em meio à rigidez do planejamento inflexível.

Hora pra beijar, pra dançar juntos como se ninguém estivesse olhando, pra uma mão boba sob o vestido. Até pra fazer amor. Tudo cronometrado, climatizado, milimetricamente tramado.

Quando isso acontece, a liberdade se afoga num mar de restrições e geralmente não se encontram salva-vidas disponíveis. Relação sem espontaneidade é um bote destinado a naufragar.

Felizmente, tivemos a sorte de tropeçar um no caminho do outro. Cruzar nossas liberdades, anseios e planos. Costurar nossos sonhos, medos e manias na nossa pele, para que assim possamos nos vestir um do outro, dia após dia. Carregar teu cheiro no bolso da alma, enquanto você leva minha voz pendurada em um galho do teu pé de ouvido.

Hoje, a cidade será nossa. Vem, vambora. Não precisa de sapato caro, bolsa charmosa ou penteado trabalhado. Só você, eu, e a velha lua lá no céu.

***
Imagem de Alemko Coksa por Pixabay

Jocê Rodrigues

Editor, escritor e jornalista.

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Jocê Rodrigues
Tags: costumes

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