Vaiar não é torcer. É querer ganhar no grito.

Pergunte a qualquer especialista em esportes. Não há em nenhum regulamento, de nenhuma modalidade, qualquer linha que reconheça a vaia como “parte do jogo”, “estratégia de competição” ou “recurso utilizado para desequilibrar o adversário”, como querem os seus defensores. Logo, vaiar em competição esportiva não é torcer por um time. É atrapalhar o outro.

E não, não se trata da antiga “pressão da torcida”, tão consagrada entre nós. Quem faz esse tipo de comparação está sendo, no mínimo, desonesto. Na boa e velha participação da torcida, um grupo de torcedores pressiona seu time a ir em frente, dar o seu melhor, superar seus limites. Mas a nefasta inversão de valores transformou a prática legítima de torcer em um negócio desprezível e covarde: em vez de despertar as qualidades daqueles para quem eu torço, eu incentivo o pior daqueles para quem eu não torço. Pura e simples trapaça. Torcida contra a esse ponto é jogo baixo e sujo. Quem vaia o adversário não tem espírito olímpico. Tem espírito de porco. Nada além de palermas querendo aparecer, chamar atenção, entrar no jogo de qualquer jeito.

É tão engraçado. A gente aqui achando que os jogos no Rio de Janeiro ficariam marcados pelos desmandos nas obras, pelo superfaturamento, pela desorganização, pelas ações que escondem moradores de rua em abrigos compulsórios até os turistas irem embora. E olha só que coisa. Pagamos a boca!

As Olimpíadas no Brasil já entraram para a história por outro motivo: como as mais “barulhentas” de todas. É. Por conta sobretudo dos grupos que vão aos jogos vaiar os adversários como mulas no cio, como se isso fosse fundamental para a vitória dos atletas da casa.

E olha que eficiente a trabalheira do povo da vaia: além de não conseguir ampliar nosso baixíssimo quadro de medalhas, seremos reconhecidos no mundo por um duvidosíssimo espírito competitivo. Parabéns aos envolvidos!

Vaiamos a Argentina na abertura do evento, o hino de outros países estrangeiros, os atletas no tênis de mesa, os gringos nas provas de natação e de esgrima. Atrapalhamos francamente o desempenho alheio como se isso fosse bonito ou correto ou “parte da festa”. Em uma das partidas do vôlei de praia, aporrinhamos tanto as atletas tchecas a ponto de uma delas declarar à imprensa: “vocês acham que isso é patriotismo?”.

Não, minha senhora. Não é, não. A senhora está certa. Isso é falta de educação mesmo. Coisa de gente que não conhece os limites. E o pior, meia dúzia de cretinos, bobocas e mimados que acham bonito causar, atrapalhar, encher o saco e só representam o que este país tem de pior. Sinceramente, vão aqui minhas comovidas desculpas por esse povo.

Imagem de capa: REUTERS

André J. Gomes

Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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