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Um médico salvou sua perna de graça; anos depois, ele mudou a saúde de todo um país

Uma queda durante a infância quase mudou a vida de Tommy Douglas antes mesmo que ele pudesse entender o peso do dinheiro sobre uma decisão médica. Décadas depois, aquela experiência ajudaria a colocar no centro da política canadense uma pergunta incômoda: por que o acesso a um médico deveria depender da renda de uma família?

Douglas nasceu em 1904, na cidade escocesa de Falkirk. Ainda criança, machucou gravemente o joelho e desenvolveu osteomielite, uma infecção óssea capaz de provocar dor intensa, danos permanentes e, nos casos mais graves, a amputação do membro.

Após a mudança de sua família para Winnipeg, no Canadá, a infecção voltou a causar problemas. Ele passou por internações, perdeu períodos de aula e precisou usar muletas. Os médicos chegaram a informar aos seus pais que seria necessário amputar a perna.

A família, porém, não tinha recursos para contratar um especialista.

A situação mudou quando um cirurgião ortopédico se interessou pelo caso e se dispôs a tratá-lo gratuitamente. Em troca, pediu autorização para que estudantes de medicina acompanhassem os procedimentos. Depois de várias operações, a perna do garoto foi preservada.

Douglas nunca perdeu de vista um detalhe: seu tratamento havia sido possível graças à iniciativa individual de um médico. Outra criança, com o mesmo problema e sem a mesma oportunidade, poderia ter recebido um destino bem diferente.

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Da experiência no hospital à política

Já adulto, Douglas tornou-se pastor batista, professor e político. Em 1944, aos 39 anos, foi eleito primeiro-ministro da província de Saskatchewan, cargo equivalente ao de governador provincial.

Sua vitória colocou no poder a Co-operative Commonwealth Federation, conhecida como CCF, uma legenda social-democrata que defendia maior participação do Estado na proteção econômica e social da população.

O governo ampliou serviços públicos, investiu na eletrificação de áreas rurais e criou mecanismos de cobertura hospitalar. Mesmo assim, consultas, cirurgias e outros atendimentos médicos ainda podiam gerar cobranças que muitas famílias não conseguiam pagar.

Era justamente a parte do sistema que Douglas pretendia modificar.

Em 1959, durante um discurso na cidade de Birch Hills, ele anunciou a intenção de criar um seguro médico público e universal em Saskatchewan. A proposta garantiria atendimento aos moradores da província independentemente da renda.

A medida encontrou resistência imediata. Entidades médicas temiam interferência estatal no trabalho dos profissionais, mudanças na remuneração e redução da autonomia dos consultórios. Companhias privadas de seguro também seriam diretamente afetadas pelo novo modelo.

Uma eleição decidida pela saúde pública

A eleição provincial de 1960 funcionou, na prática, como uma consulta popular sobre o projeto. A CCF venceu novamente e recebeu autorização política para continuar.

Em 13 de outubro de 1961, o governo apresentou o projeto que daria origem ao Saskatchewan Medical Care Insurance Act. A lei foi aprovada e recebeu sanção real em novembro daquele ano.

Douglas, no entanto, deixou o comando da província pouco depois. Ele havia aceitado liderar o recém-criado Novo Partido Democrático, o NDP, no cenário nacional.

A tarefa de colocar o sistema em funcionamento ficou com seu sucessor, Woodrow Lloyd. Foi ele quem enfrentou a etapa mais tensa da implantação.

Médicos fecharam os consultórios por 23 dias

O seguro público começou a valer em 1º de julho de 1962. Na mesma data, a maior parte dos médicos de Saskatchewan suspendeu os atendimentos em protesto contra a legislação.

A paralisação durou 23 dias. Consultórios foram fechados, profissionais deixaram temporariamente a província e grupos contrários ao programa organizaram manifestações. O episódio dividiu comunidades e colocou frente a frente duas preocupações legítimas: a autonomia dos médicos e o direito dos pacientes a um atendimento financeiramente acessível.

Para evitar um colapso completo, clínicas comunitárias continuaram funcionando e médicos de outras regiões foram chamados. No dia 11 de julho, aproximadamente quatro mil pessoas participaram de uma manifestação diante da Assembleia Legislativa de Saskatchewan contra o novo sistema.

O governo convidou o médico britânico Lord Taylor, que havia participado da implantação do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, para ajudar nas negociações.

Em 23 de julho, o chamado Acordo de Saskatoon encerrou a greve. Algumas regras foram ajustadas, incluindo garantias relacionadas à independência profissional, à remuneração e à possibilidade de médicos trabalharem fora do sistema público.

O programa, contudo, permaneceu ativo.

O modelo de Saskatchewan chegou ao restante do Canadá

A sobrevivência do plano provincial abriu espaço para sua expansão. Em 1966, o governo federal canadense aprovou uma estrutura para dividir com as províncias os custos de programas públicos de assistência médica.

Nos anos seguintes, todas as províncias adotaram sistemas semelhantes. Assim se consolidou o Medicare canadense, financiado principalmente por recursos públicos e administrado de forma descentralizada pelas províncias e pelos territórios.

Tommy Douglas não comandou a greve nem assinou o acordo que encerrou a crise. Sua contribuição decisiva ocorreu antes: transformar uma proposta vista como politicamente arriscada em lei e fazê-la sobreviver às eleições.

Em 2004, quase duas décadas depois de sua morte, Douglas venceu uma votação promovida pela emissora CBC e recebeu o título de “maior canadense”. O resultado foi definido por mais de um milhão de votos do público.

O menino que quase perdeu a perna por falta de dinheiro tornou-se, assim, o nome mais associado à criação do sistema público de saúde do Canadá.

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Gabriel Pietro

Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.

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