Para Zygmunt Bauman, a felicidade como motor do pensamento é uma revolução cultural, social e econômica

Selecionamos, aqui, um trecho do livro “A arte da Vida”, do escritor polonês Zygmund Bauman, para que iniciemos a semana refletido acerca da busca da felicidade e de suas reais implicações na sociedade em que vivemos.

“O advento da busca da felicidade como principal motor do pensamento e ação humanos prenuncia para alguns, embora também ameace para outros, uma verdadeira revolução cultural, mas também social e econômica.

Culturalmente, ele pressagia, sinaliza ou acompanha a passagem da rotina perpétua à inovação constante, da reprodução e retenção daquilo “que sempre foi” ou “que sempre se teve” para a criação e/ou apropriação daquilo “que nunca foi” ou “nunca se teve”; de “empurrar” para “puxar”, da necessidade para o desejo, da causa para o propósito.

Socialmente, coincide com a passagem da regra da tradição para a “fusão dos sólidos e a profanação do sagrado”.

Economicamente, desencadeia a mudança da satisfação de necessidades para a produção dos desejos.

Se o “estado de felicidade” como motivo de pensamento e ação foi essencialmente um fator de conservação e estabilização, a “busca da felicidade” é uma poderosa força desestabilizadora.

Para as redes de vínculos inter-humanos e seus ambientes sociais, assim como para os esforços humanos de auto-identificação, ela é de fato o anticongelante mais eficaz. Pode muito bem ser considerada o principal fator psicológico do complexo causal responsável pela passagem da fase “sólida” para a fase “líquida” da modernidade.

Sociólogo polonês Zygmunt Bauman

Sobre o impacto psicológico da “busca da felicidade” promovida simultaneamente ao status de direito, dever e propósito maior da vida, Tocqueville tinha a dizer o seguinte:

Eles [os americanos] estão acostumados a vê-la de perto o bastante para conhecer seus encantos, mas não se aproximam o suficiente para usufruí-la, e estarão mortos antes de terem provado plenamente os seus prazeres … [Essa] é a razão da estranha melancolia que frequentemente assombra os habitantes das democracias em meio à abundância, e daquele desgosto pela vida que por vezes toma conta deles em condições de calma e tranquilidade. (….)

Na Idade Média, foi elevada à categoria de principal objetivo e preocupação suprema dos mortais, e empregada para promover os valores espirituais acima dos prazeres da carne – assim como para explicar (e, esperava-se, afastar pela argumentação) a dor e a miséria da breve existência terrena como o prelúdio necessário e, portanto, bem-vindo do interminável êxtase do pós-vida.

Com o advento da era moderna, retornou com nova roupagem: a da futilidade dos interesses e preocupações individuais, que se provou serem de duração abominavelmente curta, além de efêmeros e inconstantes quando justapostos aos interesses do “todo social” – a nação, o Estado, a causa…

… Mas com a fórmula da felicidade que eleva o “estar na frente” à categoria de princípio orientador, com indivíduos esmagados por uma “sede de excitação e uma decrescente disposição de se ajustar aos outros, subordinar-se ou abrir mão, “como é possível que dois indivíduos que desejam ser ou se tornar iguais e livres descubram o terreno comum no qual seu amor pode crescer?”

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