Marcel Camargo

Talvez eu não chore, mas dói.

O sofrimento deve ser respeitado, consolado, entendido, mesmo quando reinar apenas um silêncio – silêncios podem carregar feridas imensuráveis.

Vários artigos dissertam sobre o fato de ser o choro importante para reorganizar nossas emoções e para fortalecer nossas esperanças. Logicamente, não devemos ter vergonha de chorar, uma vez que somos humanos, sentimos o mundo e sofremos com o que não dá certo – o choro, muitas vezes, é inevitável. Porém, nem todo mundo possui facilidade para chorar, seja em público, seja na própria intimidade.

Não importam as razões, existem pessoas que choram muito pouco, mesmo quando assistem àqueles filmes melosos, ou a comerciais apelativos que expõem a miséria humana. Não se trata, aqui, dos homens que seguram o choro, a qualquer custo, por medo de ter sua virilidade questionada, mas das pessoas que se emocionam, sentem a dor, mas as lágrimas teimam em não cair.

Talvez isso possa, em parte, ser explicado pela falsidade que permeia as relações humanas, hoje em dia, tornando-nos presas fáceis das maldades alheias. Sempre temeremos que alguém venha a usar nossas fraquezas da pior forma e no momento errado. Assim, não nos mostramos vulneráveis por pura proteção, como um escudo contra aqueles que esperam nosso tombo para pisar por cima com crueldade.

Na verdade, ninguém explica direito o que se passa bem dentro de cada um de nós, pois cada pessoa carrega um mundo peculiar dentro de si, absorvendo o que recebe de uma forma toda particular, de acordo com o que viveu e vive em sua relação com o mundo externo. Por isso é que alguns choram por qualquer coisa, onde estiverem, enquanto outros seguram as lágrimas e o nó na garganta, mesmo em meio a tempestades torrenciais.

Como se vê, não se deve menosprezar a dor de ninguém apenas observando o tanto de lágrimas derramadas. Nem todo sofrimento escorre pelos olhos, mas podemos ter certeza de que toda dor machuca a alma bem fundo, seja de quem for. O sofrimento deve ser respeitado, consolado, entendido, mesmo quando reinar apenas um silêncio – silêncios podem carregar feridas imensuráveis. Talvez não haja choro, mas dói. Talvez não haja palavras, mas sente-se muito. Bem no fundo.

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

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