ARTE E ENTRETENIMENTO

Surdo, negro e da periferia, brasileiro faz poesia em Libras

Segundo dados do último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no Brasil, cerca de 9,8 milhões de pessoas possuem deficiência auditiva. Desses, 2,6 milhões são surdos e 7,2 milhões apresentam dificuldades para ouvir. Entre os que apresentam dificuldade auditiva severa, 15% já nasceram surdos, como é o caso do protagonista de hoje.

Seu nome é Edvaldo Santos, e com apenas 33 anos o paulistano quebra as barreiras do preconceito e da comunicação com sua poesia feita em Libras, a Língua Brasileira de Sinais.

Ele é conhecido como Edinho da Poesia, e é natural da Cidade Ademar, na periferia da zona sul de São Paulo. Agora, vive no bairro do Jabaquara com outros três irmãos ouvintes.

Edvaldo, além de ser educador, encontrou na poesia uma forma de se comunicar com o mundo. Em sua arte ele expressa as vivências como negro e surdo em uma sociedade praticamente analfabeta em Libras.

“A arte me mostrou o caminho. Não falo só sobre mim, mas também dos outros surdos, é o que eu vejo na sociedade. O meu poema ‘Mudinho’ é um exemplo disso, os surdos veem e se identificam. Estou criando a minha arte também para falar da comunidade surda, para que eles vejam, para que eles [ouvintes] entendam”, disse à Agência Mural com apoio do intérprete André Rosa.

Trecho da poesia Mudinho:

“Quando eu era pequeno/ diziam: ‘mudinho, mudinho, mudinho’/
Eu já homem feito e barbado/ e eles: ‘mudinho, mudinho, mudinho/
Me casei, tive filho/ e eles: ‘mudinho, mudinho, mudinho/
Eu envelheci, me cansei, me curvei/ e eles: ‘mudinho, mudinho, mudinho/
Mudinho? Não, meu nome é Edinho, porra”.

No ano passado, o poeta chegou a final da principal competição de poesia falada do Brasil, o Slam BR, juntamente do compositor James Bantu. “Eu gosto do Slam porque é um espaço periférico, se afasta da poética elitista. Estamos falando sobre temas que impactam, que são relevantes”, afirma.

Edinho conta que sua presença em espaços culturais chega a ser um ato político. “Entre ser negro e ser surdo, eu acho que o principal ponto é ser negro, sabe”, diz.

Edinho começou a conhecer o cenário das rimas aos 13 anos quando passou a sair sozinho e conhecer grupos de surdos. “Eu ia em vários rolês nas quebradas, trocava ideia, falávamos sobre as nossas vidas, dificuldades e criávamos estratégias. Nós aconselhamos uns aos outros”, conta o artista.

Edvaldo conseguiu estudar desde a pré-escola até seus 15 anos em um colégio especializado no ensino de pessoas surdas, por meio de bolsa, no Ibirapuera. Mesmo tendo essa oportunidade, Edinho passou todos esses anos andando muito para chegar em sua escola, que ficava a cerca de 12 quilômetros de casa.

O que despertou o seu interesse pela vida artística foram as atividades culturais desenvolvidas pela escola em convênio ao MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo. Ele pediu a uma ex-professora para ajudá-lo a trabalhar no MAM como educador, e a partir disso nunca mais parou de fazer arte.

Hoje em dia, Edinho se apresenta no terceiro fim de semana de cada mês, no Itaú Cultural, na Avenida Paulista, em São Paulo. “Estou de férias agora, volto depois do mês de janeiro”, disse Edinho em entrevista ao SóNotíciaBoa.

Nas apresentações ele promove vivências para sensibilizar o público em relação à língua e à cultura surda. “Nesses encontros, o poeta e educador apresenta performances que, por meio da poesia, unem a arte à Língua Brasileira de Sinais – Olhares Poéticos em Libras [com interpretação em Libras]”, convida o artista no perfil no Instagram.

 

 

Com informações de TNH1
Ana Carolina Conti Cenciani

Ana, 20 anos, estudante de Artes Visuais na UNESP de Bauru. Trago aqui matérias que são boas de se ler.

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