COLABORADORES

Sobre viver os lutos para que eles deixem de viver em nós

Um evento súbito, uma notícia triste, nosso chão aberto, o peito doendo, as lágrimas rolando e a gente se transbordando. A maioria dos nossos lutos são agudos, traumáticos, extremamente emotivos e quase não conseguimos acreditar que passarão. Mas passam, sempre passam e sempre levam os passados junto, de forma que um dia acordamos e queremos sentir o cheiro da vida com tanta vontade que até sentimos culpa. E então, passou.

Os lutos não andam sozinhos, eles chegam em bando. O da frente é o da vez, o que acaba de acontecer. E choramos esse luto tão doloridamente que mal percebemos os outros que se aninham na nossa dor e aumentam o caldo das lágrimas. A tristeza abre portas para lembranças estranhas, dores guardadas, assuntos passados, males trancados… Quando dizemos que algo não importa e já passou, precisamos ter cuidado. Isso pode bem vir a ser um dos irmãozinhos do luto atual que haverão de aparecer quando a porta for aberta… Uma pequena mágoa, uma saudade, um adeus não dado, desculpas não pedidas… ou não aceitas, uma palavra errada, uma visita não feita… tudo vira luto se tiver importado, mesmo que tenhamos afirmado o contrário.

E um dia as notícias ruins nos visitam, porque seria injusto que só visitassem os nossos vizinhos. E nós sofremos e choramos todos os lutos guardados em nossa alma. Pelo tempo necessário para que a cura chegue, nada alivia.

É quando o tempo, se compadecendo de nós, diz que não há mais tempo para chorar e a vida urge recomeçar. Enxugadas as lágrimas que lavaram o mundo, é o momento da cura, do adeus, dos perdões, da aceitação. Aceitar os lutos como parte de nós, a parte que nos desmonta mas que ao mesmo tempo nos aproxima das nossas emoções mais fortes e profundas. Aceitar o consolo dos anjos que aparecem nos momentos ruins, estreitar os laços com quem se solidarizou com nossa dor e veio tentar sentir junto, veio deixar o tempo passar ao nosso lado, amenizando as feridas, suportar o silencio cortado pelo som tristíssimo de um choro e as inevitáveis, mas também cômicas fungadas e assoadas. Amigos anjos, irmãos anjos, anjos sem nome, ou com o mesmo sobrenome. E ainda se não houver anjos, mesmo assim haverá cura.

O luto é o amor se contorcendo de dor. A cura do luto, é o mesmo amor, mas sem dor, com saudades, mas disponível para o que tempo há de trazer.

Sugestão de leitura: Sobre a morte e o morrer

Emilia Freire

Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

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