Por Josie Conti e Nara Rúbia Ribeiro
O humano, ser dual, é, a um só tempo, animal e anjo; instinto e intuição. É capaz de torturar, matar, ignorar um mendigo estirado em seu caminho, é capaz de violar a pureza de uma criança, mas também é apto a lutar bravamente para salvar um desconhecido, é capaz de doar-se sem nada exigir em troca, de empreender esforços para restaurar vidas e direcionar corações no caminho do Bem.
Se o homem é considerado o único “animal ético” que existe, quais seriam, cabe-nos perguntar, quais seriam os fatores que promovem esse abismo de sangue entre atos de profunda indiferença (e até mesmo crueldade) de ações do mais elevado grau de altruísmo?
É claro que a história de vida e o meio onde esses seres estão inseridos serão influentes em seus comportamentos. Pensando em uma criança nascida em uma casa onde suas necessidades básicas sejam supridas, talvez possamos levar a atenção para o processo de transição pelo qual essa criança passa durante sua infância, onde, de ser primitivo e totalmente egocentrado, cresce e é teoricamente estimulado a relacionar-se com mais pessoas.
Nesse processo de interação, a criança descobre que não é única e que os outros reagem aos seus comportamentos das mais diversas maneiras. A capacidade de se vincular, desenvolver sentimentos de empatia (aprender a se colocar no local do outro) assim como o manejo que desenvolver frente às frustrações encontradas nesse caminho promoverão o estreitamento dos laços verdadeiros e a libertação gradativa desse egocentrismo inicial.
Pais e responsáveis têm papel importante nessa etapa, pois oferecem os primeiros estímulos. São eles que precisam ser fortes para lidar com o sofrimento da criança que não costuma gostar de suas restrições iniciais quanto a ter e fazer tudo o que quer.
Em prol do amadurecimento de um filho, um pai que ama é aquele que, quando necessário, diz “não” e o sustenta. Para a humanização de uma vida, a mãe que ama é aquela que não faz todos os gostos de sua criança.
Para a educação social de um ser, os responsáveis competentes são aqueles que corrigem e estimulam. Que dão afetos, mas também dão limites, mesmo frente ao mais estrondoso choro infantil
O caminho para a construção de um cidadão ético e maduro também permeia o desenvolvimento da capacidade reflexiva. Permitir que a criança brinque espontaneamente ou mesmo corrigi-la com atos disciplinares, como os do gênero “agora você senta e pensa no que fez por “X” minutos”, são dois métodos dos mais eficazes. O primeiro no desenvolvimento da fantasia e da imaginação, o segundo na formação da consciência e da responsabilização pessoal pelos próprios atos.
Nessa disposição de querermos entregar filhos melhores ao mundo, não devemos nunca nos esquecer de que deles somos o mais imediato exemplo. Nos adultos, esse tempo de reflexão continua essencial e deve ser destinado à autoanálise introspectiva. Ato que muitas religiões denominam “autoiluminação”.
O ser que reflete não é impulsivo e é menos influenciável. Quem se conhece melhor, sabe mais o que quer e no que acredita, logo, possui uma base muito mais sólida para suas próprias decisões.
Quanto mais consciente for uma pessoa com relação a si mesma, menor tende a ser o seu apego às coisas materiais, em seu egocentrismo, e maior se mostra o seu movimento em relação às causas de humanidade.
Assim, vivendo em harmônica dualidade, anjo e animal, instinto e intuição, se fará o homem a cada dia maior, mais apto, mais humano. Capaz de melhor conduzir sua existência à plenitude e de bem orientar os seus filhos, sabedor de uma máxima verdade:
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