Sendo honesto

Sabemos que uma das cláusulas do contrato da vida em sociedade impede que vivamos a experiência completa de honestidade.

Sabemos que uma das cláusulas do contrato da vida em sociedade impede que vivamos a experiência completa de honestidade. Uma mínima dose de hipocrisia, afinal, é necessária para conviver bem com as pessoas que nos cercam, manter um emprego, preservar os nossos afetos. Mas ainda assim, acredite em mim, ser honesto é algo que vale à pena, mesmo com as já citadas limitações causadas pelas obrigações sociais.

Ser honesto com você mesmo te ajuda no processo de se amar como se deve. Passei algum tempo não sendo honesto comigo mesmo, confesso. Vivia uma vida toda equivocada, com empregos que nunca davam certo porque não me faziam feliz, objetivos de vida criados com base no entendimento de sucesso de outras pessoas, relações pessoais mal formadas. Mas logo meu castelo de areia desmoronou; divórcio, desemprego, auto-estima baixa e um cansaço emocional que me fazia ter vontade de fugir para a primeira zona de conforto que me aparecesse pelo caminho. Me vi completamente sem perspectivas. Então foi aí, com as minhas ilusões desfeitas e as minhas convicções em cheque, que eu comecei a reavaliar tudo e tomei a decisão de finalmente ser honesto comigo mesmo ao máximo que conseguia ser. É claro que à princípio eu não tinha a menor ideia do que fazer, não sabia exatamente quem eu era e o que buscava. Mas quando você decide ser honesto e busca por si mesmo dentro daquele personagem esdrúxulo que criou para si mesmo, hora ou outra as coisas fluem.

Sendo honesto comigo mesmo, descobri que o meu conceito de sucesso não é o mesmo que a publicidade vende e a maioria das pessoas defende. Não, eu não preciso ter um carro de R$100 mil na garagem; aliás, eu sequer preciso de uma garagem ou de um carro. Caminhar é uma delícia! Principalmente no começo da manhã ou à noite. Não dá pra ver o sol nascer de dentro de um carro, não é mesmo?

Eu não preciso estar nos lugares mais deslumbrantes todos os finais de semana para postar fotos que vão render centenas de likes nas redes sociais, afinal, mais vale estar no quintal da minha casa em boa companhia do que estar em Paris em companhia entediante. Se eu puder viajar muito e conhecer lugares e pessoas incríveis, ótimo! Se eu não puder, parcelo a viagem do final do ano em 12 vezes e passo o resto do ano sendo feliz no quintal da minha casa.

Eu não preciso de uma carreira de sucesso no meio corporativo, não preciso ser engenheiro, médico, advogado ou qualquer outro profissional com diploma. Se eu tivesse prazer em dobrar roupas, daria um jeito de ser o melhor dobrador de roupas em uma loja de e então seria bem sucedido por estar fazendo o que me faz feliz e, pode ter certeza, ninguém teria autoridade para dizer o contrário.

Na infância gastei um bom tempo tentando pertencer a algum lugar. Mas, para pertencer a algum lugar, é claro, você tem que se encaixar naquele lugar. E eu nunca fui bom em me encaixar. Sabe quando você espalha as pecinhas do Lego no chão para brincar e, de repente, descobre que tem uma pecinha ali no meio que não é Lego e também não é de nenhum outro jogo, então a descarta em algum canto? Pois eu já me senti essa pecinha, e por isso batalhei para esconder tudo o que eu tinha de diferente, inclusive o meu bom desempenho escolar, porque entendi logo cedo que crianças inteligentes muitas vezes são a pecinha descartada. Escondi meu humor ácido, minhas meias do Pokemón e a minha sensibilidade artística. Mas, sendo honesto, entendi que sou diferente e que gosto disso. Não preciso e nem quero ser igual. Gosto de todos os meus talentos, do meu humor, da minha sagacidade, da facilidade que tenho para aprender; gosto até das minhas olheiras (finalmente) e dos meus olhos que me deixam com uma eterna cara de sono. Ser diferente é um tesão. Não vejo qual é a graça em ser igual a todo mundo se posso ser especial.

Sendo honesto aprendi a gostar da minha própria companhia. Não preciso estar rodeado de pessoas para estar feliz. Encontro prazer na minha solidão. Vou ao cinema, me presenteio com uma boa comida, com uma boa leitura, com uma boa música, converso comigo mesmo. Sendo honesto aprendi a me amar; e, me amando, aprendi a não aceitar qualquer companhia. Só me cerco daqueles que conseguem ser tão boa companhia pra mim quanto eu mesmo.

A minha convivência comigo mesmo me ajudou a descobrir que o medo e a ansiedade não me pertenciam e não me cabiam. Por que passar uma semana, um mês, ou até um ano sofrendo por conta de qualquer coisa que seja – um compromisso desagradável, uma consulta médica, uma cirurgia… – se eu posso postergar esse sofrimento? Fiz uma cirurgia meses atrás e me lembro de ter programado minha ansiedade para chegar exatamente momentos antes de entrar na sala de cirurgia. E aproveitei todo o tempo que me restou vivendo os meus dramas cotidianos que pouco afetam meu humor. É claro que chegar a essa prática não é um caminho fácil. Mas com muito esforço é possível se livrar do peso de medos e ansiedades desnecessárias.

Mesmo com tanta reprogramação, a tristeza e a angústia às vezes vem me visitar, afinal elas existem em todos nós, por mais que se tente evitar. Mas hoje eu entendo que elas estão apenas de passagem, não vão ficar para sempre. Assim, respeito meus dias de cinzentos e me permito vivê-los, mas sabendo que tudo nessa vida é passageiro. Amanhã é sempre um novo dia.

Então reafirmo, ser honesto consigo mesmo vale à pena. E é um caminho sem volta. Quando mais se é honesto, mas se é levado na direção de um entendimento melhor de práticas e códigos para viver mais feliz. Então seja honesto o quanto puder, com as suas convicções, com os seus afetos, com a sua própria natureza.

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Felipe Souza
O socorrense Felipe Souza descobriu cedo o seu interesse pela literatura e pela escrita. Nos primeiros anos da escola já era uma criança imaginativa que tinha especial interesse pelas aulas de Redação e de Língua Portuguesa. Na adolescência, já se arriscando a produzir seus próprios textos, participou de três edições do Mapa Cultural Paulista, tradicional concurso literário do Estado, inscrevendo seus contos, “Procura-se uma identidade, de 2005, “Rotina”, de 2006 e “(Minha vida cabe dentro de um parêntese)”, de 2007, que, em suas respectivas participações, conquistaram a primeira colocação na fase municipal da competição.Felipe cursou Letras- Português e Inglês, na PUC-Campinas e trabalha desde novembro de 2016 produzindo conteúdo jornalístico para a Rádio Socorro.