Se há uma possibilidade de amar, não recuo.

Se há uma possibilidade de amar, não recuo.

Corro o risco de ser arrastada pelo sabor adocicado das palavras, seduzida pela sutileza dos gestos, atraída pelo tempero da voz que passa a ser a minha música predileta.

Amo com o corpo inteiro e passo noites construindo declarações, testando o encaixe das palavras e a tessitura dos verbos, mesmo sabendo que diante do seu sorriso o meu preparo se dilui e a minha voz desaparece, corro o risco de voltar a ser apenas uma amante em início de carreira. Uma funcionária humilde a serviço do coração.

Bem provável que esqueça de assinar o cartão e improvise um poema antes de entregar o presente. O tom desajeitado da voz e a maneira confusa de esquecer os olhos na sua boca será a minha maior declaração de amor. A minha distração mais comovente.

O meu jeito de amar não se repete, é uma estreia que descobre nos gestos trêmulos a melhor maneira de tocar.

Um desejo paciente que aguarda a resposta dos poros sem desespero.

Um querer que não mente as intenções, mas não ultrapassa nem agride a vontade do outro.

Enquanto aguardo a possibilidade de ser correspondida, projeto futuros, alinho afinidades na curva do pensamento.

Entendo o sorriso como um convite para encurtar a distância. A aproximação num banco de praça é o comprovante que autentica a certeza.

Quando as mãos se tocam é sinal de que as almas já piscaram, no mínimo, uma vez. A partir daí, corro o risco de ser mais ousada: deixo bilhetes dentro do livro favorito, sublinho citações, construo enigmas e avanço devagar…

Desbravo o espaço entre os dias com uma determinação invejável. Começo a tirar férias da rotina. Perco o medo de fracassar. Sinto saudade do cheiro do cabelo, das palavras risonhas distribuídas entre um e outro afago, as recordações se transformam numa passarela onde transito alegremente.

Esqueço que há poucos dias, eu estava solitária. Só consigo abrandar a fúria da saudade com a lembrança das carícias.

Satisfeita, percebo que há uma movimentação sublime do outro lado. Uma resposta intensa que se derrama pelos gestos. Sinal de que já posso caminhar na mesma direção sem ter de inventar desculpas.

Que já posso sentir saudade sem rebobinar o dia anterior porque serei abençoada com um novo encontro. Se há uma possibilidade de amar, não economizo. Faço dela um investimento.

Imagem de capa: Anna Om/shutterstock

Ester Chaves

ESTER CHAVES é uma escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participa de vários eventos poético-musicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. Em junho de 2016, teve o conto “Os Voos de Josué” selecionado na 1ª edição do Prêmio VIP de Literatura, da A.R Publisher Editora.

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