Saudade do que não foi

Eram duas senhoras internadas em um hospital. Colegas de quarto. Ficaram amigas. Cantavam juntas para afugentar a dor. Uma sofria de infecção; a outra, câncer no cérebro. O filho de uma, conheceu a filha da outra e o amor teve início ali mesmo, num quarto hospitalar, no horário de visitas.

Está certo que o filho de uma pareceu um doutor aos olhos da filha da outra, mas, mesmo depois que a verdade apareceu, o amor continuou e cresceu. A doença de uma foi curada e ela voltou sã para casa; o câncer da outra, a devorou por completo depois de uns meses. A neta de uma é a neta de outra. Sou o primeiro fruto daquele amor nascido em meio à dor.

Para uma, sorte; para a outra, morte. Uma viu seus filhos crescerem; a outra deixou um pequeno e seis grandinhos. Uma foi à festa de casamento do filho; a outra, não teve tempo de ver a emoção da filha. Uma, conheço como a palma da minha mão; a outra habita meus pensamentos e me faz sentir saudades do que poderia ter sido, mas não foi.

Uma avó me viu nascer; a outra nem soube de mim. Ainda bem que eu sei dela. Não muito, mas o suficiente para carregá-la comigo. Uma foi avó em dobro porque a outra não teve a chance de ser. Uma avó ajudou a me criar; a outra foi criada por mim. Uma foi minha segunda mãe; a outra não pode ser. Uma, ofereceu-me colo, balas, sorrisos; a outra me ofereceu saudade e sua essência em minha mãe. Uma, amo porque conheço; a outra, amo porque deixei de conhecer.

Eram duas senhoras internadas em um hospital. Hoje são duas avós minhas. Minhas e de mais gente. Uma conhece todos os netos e bisnetos. A outra, não sei dizer…Talvez os conheça de onde está. Uma, posso tocar, abraçar, beijar; a outra, posso só imaginar e querer bem. Uma me conta histórias de sua juventude em meio a gargalhadas; a outra morreu jovem e precisa que me contem sobre ela. Uma está ao meu lado; a outra, dentro de mim. Uma eu vejo quando quiser; a outra verei quando chegar a hora. Uma me fez companhia a vida inteira; espero que a outra me acompanhe na eternidade, porque uma é minha… E a outra também!

Grasiela Bernardes

Educadora com formação em Letras Português/Inglês e foquei minha carreira na alfabetização durante quinze anos. Porém, um câncer de boca (localizado na língua) me afastou da sala-de-aula e me fez descobrir o dom que adormecia em mim: a escrita. A doença me deu tempo e uma história para contar. Resolvi registrar no papel como o câncer me curou, transformando-me em alguém melhor. Assim nasceu o livro Impactos do Câncer, que foi lançado no final de 2015. Desde então, sigo escrevendo sobre o que meu coração manda, porque sinto que é essa a contribuição que sei deixar para o mundo.

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