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São todos iguais! Mas, diferentes…

Depois de algum tempo levando pancadas seguidas dos acontecimentos da vida, tendemos a estabelecer generalizações muito nocivas à expansão das nossas experiências. Corações partidos vivem cantarolando amargamente por aí que homens, ou mulheres “são todos iguais”. Um, dois, três, muitos relacionamentos que não deram certo. Muitos que nem começaram. Uma noite por semanas de desilusão. Anos de investimento e esperança minados por um acontecimento, por um escorregão, por um fora ou um tempo que nunca retornou.

A repetição da percepção de que o comportamento das pessoas é sempre o mesmo, de que suas ações são previsíveis, de que o que elas querem é a mesma coisa, acaba por nos fechar para todo o resto, como se não houvesse no mundo uma multiplicidade de possibilidades para novos acontecimentos. O que não se percebe nestes casos, é que ao nos colocarmos nessa posição, há apenas duas possibilidades de interpretação. Uma é narcísica: “todos são iguais, mas eu sou diferente”; a outra é constrangedora: “todos são iguais, inclusive eu”.

Fica latente outra possibilidade: a de voltar atrás, engolir a amargura dos “maus amores” e admitir que “não, não são todos iguais”. É verdade que somos muito condicionados, mesmo quando não percebemos, e acabamos por ter formas padronizadas de agir em determinadas situações. Temos muito oráculos para nos ensinar a “prever” o futuro e as pessoas: signos, conceitos pseudopsicológicos, testes de personalidade, e por aí vai. Há muito tentam nos ensinar a prever as atitudes alheias, e até as nossas, mas muito pouco nos alertam sobre como lidar com o imprevisto.

Dessa forma, não seria uma possibilidade para essa impressão de que todos são iguais, apenas um sintoma que desenvolvemos ao começarmos a olhar para os outros, buscando neles essas “coisas” previsíveis que aprendemos a enxergar? E então, naquele momento em que tudo dá errado e ficamos mais sensíveis à montanha-russa da vida, buscamos a fácil resposta e o mau consolo de colocar todos no mesmo saco, e nos fecharmos em nossa redoma de perfeição auto piedosa?

Há certos momentos da vida que nos fazem pensar que existe uma conspiração do universo contra nós (como se fôssemos tão preciosos, que o universo se ocupasse em conspirar contra nós, ou a nosso favor, sem o nosso consentimento e trabalho em cima disso), que realmente tudo parece acontecer de forma igual. As pessoas realmente parecem agir de forma igual. A impressão é empírica. O outro lado da moeda, é que em todas essas situações nós também agimos de forma igual, todavia, essa é a parte da história que preferimos ignorar.

Mas, ao nos depararmos com essa consciência, não adianta forçar a barra e nos caricaturarmos achando que tudo vai mudar da noite para o dia ou em qualquer situação. Este aparente infortúnio, por sinal, pode ser uma espécie de salvação – a que nos salva de nos agarrarmos, no desespero, à uma solução vazia, enquanto poderíamos estar a um passo de um acontecimento legítimo. Essa insustentável impaciência de ser no tempo da vida.

Creio que o amor nasça da diferença: quando duas pessoas se tocam de fato, acessam o íntimo uma da outra. Elas se tornam diferentes. Diferentes uma para o outra. Para todas as outras, que nunca se tocam, todos continuam iguais.

Paula Peregrina

Peregrina de territórios abstratos, graduou-se em Psicologia, trocou o mestrado e uma potencial carreira por uma aventura na Letras e acabou forasteireando nas artes. Cruzando por uma vida de territórios insólitos, perseveram a escrita, a poesia e o olhar crítico, cristalino e estrangeiro de todos os lugares.

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