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Salvos pela Infância

Por conta dessas modernidades de rede social e smartsphones, quatro amigos solteiros se reencontraram depois de uns vinte anos sem que houvesse algum tipo de comunicação nesse tempo. Resolveram “sair para beber”, pois bem sabemos que a bebida é uma enzima que cataliza o diálogo. Todos eles já tinham completado mais de quarenta invernos e raras e inesquecíveis primaveras.

Quando a madrugada já apontava, Amanda, a única mulher no grupo, querendo puxar mais assunto, perguntou:

– Há dez anos atrás, como estavam vocês nesse tempo?

Silêncio na mesa. Henrique que estava rindo ficou sério. Guilherme pediu ao garçon uma destilada e Luis enxugou uma lágrima furtiva que saiu assim de repente.

Amanda percebendo que havia mexido onde não devia tentou consertar:

– Mas o Vasco, hein?! E aí, vocês acham que Dilma sai ou fica?

Todos quietos com o foco do olhar para pontos diferentes no ar. Amanda que promoveu essa bad de uma hora para outra ao propor um recuo no tempo acabou perguntando para os três de uma vez:

– Ainda a amam? – E pediu mais um chopp.

Todos bebiam, mas quando o copo não estava em contato com a boca, os lábios se apertavam espremidos um contra o outro formando algo parecido com uma parábola com a concavidade para baixo. Estavam cheios de nunca mais nos pensamentos.

Henrique havia se separado há cinco anos. Ficou casado quinze. Guilherme nunca casou, mas chegou perto disso lá pelos idos de dois mil e blá. Luis fazia um ano que estava nessa vida de solteiro. Odiando por sinal. Todos querendo que a mulher em que pensavam entrasse a qualquer momento, ligasse, vá lá, mandasse uma mensagem mas que pelamordedeos não se entregasse a um outro qualquer, que tomasse cuidado com o castelo em que um dia moraram e brincaram de rei.

Por que fora perguntar aquilo?, questionava-se Amanda que não estava arrependida de nada nessa vida, mas buscando tudo alucinadamente. Qualquer coisa. Muita coisa. Amanda queria desde um amor nível Lennon e Yoko a encontrar-se com ela mesma fazendo da solidão um luxo.

Como animar a mesa depois que o pretérito imperfeito e o futuro desse presente havia se instaurado entre eles? De repente, ocorreu-lhe uma ideia que fizeram todos andarem de bicicleta na chuva. Olhou para os três amigos e super animada perguntou:

– Há trinta anos atrás, o que vocês gostavam de fazer? Como estavam nessa época?

Ora, todos sorriram com um olhar de menino. Bola de gude, pelada na rua, praia, pipa, matar aula, carrinhos, helicópteros, cataventos, avós, chinelada de mãe, coleção de figurinhas, fogueira de São João,…

– Eu acertava pardais com estilingue!

– Roubava pra cacete no jogo do bafo!

– Fui medalhista três vezes seguidas em corrida do saco!

Riam-se tanto que os que estavam na mesa ao lado foram contagiados e começaram a gargalhar também assim do nada.

Todos salvos pela infância.

Elika Takimoto

– Segunda colocada no 1º Prêmio Saraiva: Literatura, categoria: crônicas. – Doutora em Filosofia pela UERJ. – Mestre em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia pela UFRJ. – Graduada em Física pela UFRJ, professora de Física do CEFET/RJ. – Autora dos livros: 1- História da Física na Sala de Aula – publicado pela Editora Livraria da Física. 2- Minha Vida é um Blog Aberto – será lançado agora no segundo semestre pela Editora Saraiva. 3- Isaac no Mundo das Partículas – livro infantil sobre Física de partículas e filosofia da ciência para crianças. Ainda não publicado. 4- Como Enlouquecer seu Professor de Física – um livro sobre Filosofia da Ciência para jovens e adultos. Ainda não publicado. 5- Filhosofia – um livro de crônicas sobre seus três filhos, ainda não publicado. 6- Tenso, logo escrito – um livro de crônicas escritas motivadas pelo sofrimento. Ainda não publicado. 7- Penso, logo escrito. – um livro de crônicas onde há muitas reflexões. Não publicado. 8- Eu conto – Um livro de contos. Ainda não publicado. 9- O que há de Metafísica na Física? – A sua tese de doutorado que futuramente virará livro.

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