Reticências e ponto final

Ele disse “A gente se fala(…)” e fechou apressadamente a porta atrás de mim. Fiquei ali parada, segundos que pareceram horas, imóvel, saia e salto alto, a pele bronzeada de dias bem vividos, tentando recuperar o fôlego e as batidas do coração. Dentro daquelas quatro pequenas palavras cabia tanta coisa! Cabia sua falta de interesse e a pressa em me ver partir. Cabia também minha curiosidade e vontade de ficar.

Eu sempre quis entender por que as coisas acontecem em tempos tão desconformes. Como é possível que as certezas sejam tão desencontradas e unilaterais. Mas, às vezes elas simplesmente são.

Dentro daquelas quatro palavras cabia a certeza dele e todas as minhas dúvidas. A minha certeza e todas as suas dúvidas. A razão dele e a minha emoção. Demorei um tempo para tranquilizar o coração e começar a caminhar. Caminhei em passos lentos pelo centro da cidade, destoando de todos que passavam apressados ao meu redor. A minha história pessoal me trouxe algumas certezas: viver o agora, celebrar os bons encontros, permanecer quanto for necessário. Não me ocorreu que talvez não fosse o mesmo para ele. E não foi.

Muitas vezes as respostas são óbvias, mas nos pegam tão desavisados que precisamos de tempo para digeri-las. Eu quis ficar um pouco mais, embora já soubesse o que “a gente se fala” significa. Nossos caminhos seguiram divergindo em mensagens de tempos tão descompassados, perdidos e desorganizados entre si que as palavras foram tornando-se escassas e vazias, soavam estrangeiras. A despedida era inevitável. Demorei-me o tempo que precisei, ele foi despretensiosamente paciente comigo, até que chegou a hora do ponto final:

– Fica bem!

Aprendi que duas pequenas palavras podem conter uma imensidão: lágrimas, escolhas, dúvidas e certezas, as chances que não nos demos, os bons momentos que não nos permitimos viver. Perguntas sem respostas e perguntas claramente respondidas. Nossos corações calejados. E sementes sem regar.

Duas simples palavras que encerraram um universo de possibilidades. Ficaram bem ali verbos conjugados no futuro do pretérito. O futuro de um passado que não existiu. E o nosso tempo, que tampouco existira.

É certo que o tempo é gentil com os corações desiludidos. Uma porta que se fecha, são caminhos que se abrem. O caminho livre adiante me conforta e traz a certeza de que o que está por vir é melhor do que ficou para trás. Sempre. Sigo bem, passos firmes e coração em paz.

Imagem de capa:  ivan bastien/shutterstock

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Tatiana Nicz
Libriana com ascendente em Touro. Católica com ascendente em Buda. Amo a natureza e as viagens. Eterna curiosa. Educadora e contadora de histórias. Divagadora de todas as horas. Escrevo nas horas vagas para aliviar cargas, compartilhar experiências e dormir bem. "Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia." Guimarães Rosa