Tatiana Nicz

Repara bem no que não digo

“Repara bem no que não digo.”

Paulo Leminski

Há alguns meses uma amiga de longa data ficou chateada com algo que postei e me enviou vários áudios falando tudo que ela achava sobre mim e que não soavam nem um pouco como elogios, ela terminou com a famosa frase que a turma-dos-extremamente-sinceros usa para tentar amenizar o peso de suas palavras: “estou falando isso porque gosto de você, porque sou sua amiga”. Após o ocorrido não nos falamos mais, eu até pensei em procurá-la para conversarmos pessoalmente, mas achei melhor me calar.

Calei-me porque o que eu queria dizer para ela também não vinha do melhor de mim: que ela estava infeliz com suas escolhas e incomodada com as minhas, que ela não estava falando nada daquilo porque gosta de mim ou porque é minha amiga, mas para esgotar sua raiva e frustração, para se sentir melhor. Ela estava dizendo aquilo por qualquer outro motivo, menos porque se importava comigo. E isso me fez entender que naquele momento da nossa amizade não existia mais espaço para diálogos construtivos, então era melhor calar.

É certo que nos tempos atuais, com tanta facilidade de comunicação o que não sobra são opiniões rápidas e sinceras, que em sua maioria, são desprovidas de afeto ou cuidado. Mas, o pior tipo de informação é aquela que não foi pedida, que vem de graça e sem avisar. Não tem cuidado, não tem carinho. E palavras sinceras sem afeto, sem contexto, sem um convite para serem faladas, não são sinceridades, são retaliações. Quem fala o que pensa, sem se preocupar com a maneira, com o meio ou em como isso pode ser recebido pelo outro, não é sincero, é insensível.

Em situações assim calar não é uma escolha arrogante, mas sim respeitosa. É importante preservar o que foi bom na relação e o outro. Diálogos construtivos somente são feitos quando existe disponibilidade emocional de ambas as partes, e é difícil criar essa disponibilidade em momentos de raiva, tristeza ou tensão.

O escritor japonês Haruki Murakami escreve em seu romance 1Q84: “Se você não consegue entender uma coisa sem receber explicações, você continuará não entendendo, apesar das explicações”. Pois é, existem muitas pessoas que não entenderão nossas explicações e situações que não precisam ser conversadas. Levei tempo para entender isso e para aprender que em alguns momentos na vida é preciso falar, mais existem tantos outros que o mais importante é aprender a calar, saber distingui-los é essencial.

Muitas vezes fazemos o contrário: calamos quando deveríamos falar e falamos quando deveríamos calar. Nós temos coragem para discutir sobre política, religião ou outros assuntos diversos e polêmicos. Somos bravos quando falamos dos outros, mas nos falta coragem para falar de nós, sobre nossas dores, frustrações e medos.

O mundo não precisa do barulho da nossa ira e indignação, o mundo não precisa saber tudo o que pensamos, que nos empenhemos em desprender tanta energia em explicar o óbvio. O mundo não precisa de nossos textões e lições de moral. O que o mundo precisa é de falas mais presentes e assertivas, é de verdades construtivas. O que o mundo precisa é de mais gente que sabe quando é hora de calar, o que o mundo precisa é de silêncio.

Imagem de capa: Reprodução

Tatiana Nicz

Libriana com ascendente em Touro. Católica com ascendente em Buda. Amo a natureza e as viagens. Eterna curiosa. Educadora e contadora de histórias. Divagadora de todas as horas. Escrevo nas horas vagas para aliviar cargas, compartilhar experiências e dormir bem. "Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia." Guimarães Rosa

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