Jackson Cesar Buonocore

“Quando se pensa na morte, a vida tem menos encantos, mas é mais pacífica”

É difícil pensar na finitude humana, por trazer à tona a visão escatológica do fim do mundo da nossa tradição judaico-cristã. Ela representa sinais inevitáveis, de que todos os seres vivos são finitos, que todos vamos morrer, e que temos um final. Mas, o medo da morte dispara o nosso mecanismo de defesa contra o absurdo de não querer morrer.

No fundo ninguém acredita em sua própria morte, como disse Freud: “No inconsciente cada um de nós está convencido de sua própria imortalidade”. Apesar dessa negação: a morte nos dá sinais com frequência, porque está em nós o medo do abandono, da doença, da velhice, da violência e das incertezas da vida e seus conflitos.

Então, para superar a negação da morte, precisamos aceitar que ela é um fenômeno impossível de não acontecer, que não se importa se somos religiosos, ateus, pobres e ricos ou menos ainda se alguém será enterrado como indigente ou em um mausoléu, construído para sepultar uma figura importante.

Entretanto, podemos aprender a lidar com isso de maneira pacífica: buscando o conforto na fé e nas crenças que acreditam na continuação da vida depois da morte ou encontrar na sabedoria e na espiritualidade não apenas respostas sobre a finitude, mas sobre o sentido da vida, com seus encantos e desencantos.

Hoje, em nossa civilização, estão presentes duas grandes forças antagônicas, segundo o psicanalista Erich Fromm: a orientação necrófila (amor à morte) e a orientação biófila (amor à vida), a primeira considera a morte de estranhos e de inimigos um fato lascivo, onde exaltam as enfermidades, os desastres, os homicídios, etc, que causam mortes.

Porém, a orientação biófila se revela nos seres humanos, que celebram que todos os organismos vivos têm o direito à vida. Eles lutam para preservar a vida e compreender a morte, como processo da nossa biofilia. Além disso, as pessoas biófilas amam a vida e são atraídas pela sua energia e beleza em todas as dimensões, preferindo pacificar, ao invés de destruir.

Assim, passamos a ter a percepção de finitude humana, mas não pela razão fria e calculista, que estabelece a condição niilista de vida e morte, onde têm criaturas que prefaciam não existir tempo suficiente para concretizar todos seus desejos e ambições, vivendo a sensação feral e débil diante da vida.

Portanto, a finitude e seus sinais se impõem pela nossa realidade involuntária de haver nascido e ter que morrer. Contudo, nascemos livres para dar sentido à vida e entender os dilemas da existência humana. É como afirmou Leon Tolstói: “Quando se pensa na morte, a vida tem menos encantos, mas é mais pacífica.”

Enfim, para nos desprender da tensão entre a vida e a morte está a nossa capacidade de transcender, de se elevar acima dessa dicotomia, já que temos a potência para desenvolver a nossa consciência e sentimentos, que nutrem de significados à nossa existência no plano material e espiritual.

Photo by Bùi Nam Phong from Pexels

Jackson César Buonocore

Jackson César Buonocore Sociólogo e Psicanalista

Share
Published by
Jackson César Buonocore
Tags: morte

Recent Posts

Você faz isso ao acordar? 4 hábitos matinais ligados ao risco de derrame que muita gente ignora

A primeira hora do dia costuma ser tratada no automático: levantar correndo, resolver pendências e…

5 horas ago

Esses pontinhos na visão podem não ser tão inofensivos: o que um oftalmologista recomenda fazer agora

Se você começou a ver manchas se mexendo na visão, este alerta de oftalmologista pode…

6 horas ago

Novo estudo liga autismo a fator inesperado durante a gestação e levanta alerta

O autismo pode começar antes do nascimento? Estudo traz nova pista

6 horas ago

Ela tem mais de 75 anos, não fez plástica e surpreende quem vê hoje — o antes e depois virou assunto

Você lembra dela? Atriz de olhar inesquecível surge aos 77 sem plástica e chama atenção

6 horas ago

Ela foi considerada a mulher mais bonita de Hollywood… Agora aos 86 anos, sua aparência atual está dando o que falar

Quem vê hoje nem acredita: a atriz mais bonita de Hollywood surgiu aos 86 anos…

7 horas ago

Você pode estar entendendo seu corpo errado — veja se você é ectomorfo, mesomorfo ou endomorfo

O motivo de seu corpo reagir diferente pode estar aqui — descubra qual é o…

8 horas ago