Quando olhamos para ele(a) e pensamos: como é que eu pude?

“Como é que eu pude?” Eis a pergunta que nos fazemos toda vez que o encanto de uma paixão se desfaz e acordamos de um sono profundo, sono este que pode durar mais tempo do que a sesta da Cinderela.

Existe o “tempo da delicadeza”, cantado por Chico Buarque, e, existe o tempo do “como é que eu pude?” – para alcançar o primeiro é necessário sentir o segundo.

O tempo do “como é que eu pude?” só acontece quando decidimos enxergar o objeto de nossa paixão exatamente como ele é, quando paramos de atribuir-lhe qualidades que nunca existiram.

Só se desilude quem se iludiu. Quem se enganou. Quem criou uma realidade que não existe. Quem se relacionou com um personagem – que teimou em não seguir o roteiro – e não com a pessoa real.

Quando nos perguntamos “como Fulano(a) pôde fazer isso comigo?”, no fundo estamos falando do nosso personagem, não do fulano(a) em si, pois se observarmos com cuidado e atenção, sem julgamento de valor, perceberemos que a atitude de Fulano(a) é extremamente compatível com o que ele(a) é de fato.

“Fulano(a) foi cruel, frio(a), indiferente, desumano(a), perverso(a)”. Estes são os adjetivos que costumamos usar quando nossos sonhos de um relacionamento perfeito vão por água abaixo e/ou quando nos sentimos abandonados.

Mas será mesmo que Fulano(a) foi  frio(a), indiferente, perverso(a), desumano(a), ou fomos nós que não quisemos enxergar que ele(a) provavelmente age dessa forma com ele(a) mesmo(a) e com todos que o(a) cercam? Que no fundo ele(a) nunca foi aquela pessoa sensível, delicada, doce, acolhedora e romântica que pintamos?!

Geralmente demoramos para chegar no tempo do “como é que eu pude?” porque não suportamos a ideia do vazio e do engano. Preferimos seguir entoando o hino brega de Peninha, “saudade até que é bom / é melhor que caminhar vazio” do que admitir para nós mesmos que nosso roteiro particular foi fracasso de bilheteria.

É claro que sem um bocado de imaginação, projeção e idealização não existiria a paixão. Porém, quando as coisas não vão bem e a personagem da nossa trama secreta abandona o set de filmagens (ou é demitida por mau comportamento) precisamos deixar de idealizá-la. Precisamos tirá-la do pedestal de estrela com direito a cem toalhas brancas num camarim privativo. Precisamos aceitar que Fulano(a) não era compatível com o papel e… abrir novos testes.

Toda vez em que deixamos Fulano(a) ser exatamente o que ele(a) é – e não o que imaginamos- acabamos chegando à pergunta: como é que eu pude? É batata! – como diria o saudoso Nelson Rodrigues. E é tão libertador! Experimente!

Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

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