Porque às vezes é preciso impor limites à criatividade e à proatividade

Me deparei com duas tristes realidades: Não sou capaz de agradar sempre e não tenho braços grandes o suficiente para abraçar o mundo. Você pode estar se perguntando, “Só agora ele descobriu isso?”, no que eu tomo a liberdade de responder, “São entendimentos básicos, eu sei. Mas você já parou para pensar que, às vezes, sabemos de algo na teoria, por ouvir falar, por ser mera questão de bom senso, ou por ter lido em algum livro de autoajuda; entretanto só assimilamos de fato esse conhecimento a partir de alguma experiência que vivenciamos?”.

Na teoria sempre soube que não sou um super-herói ou um astro de cinema, porém, algo em mim – tanto pode ser egocentrismo quanto mera teimosia – me fazia ter um fio de esperança de que um sorriso caprichado, boas doses de audácia, engenhosidade e boa vontade fossem o suficiente para que eu conquistasse meus objetivos mais grandiloquentes e as plateias mais desinteressadas. Veja só, quanta pretensão! Mas é claro que a realidade não demora a se apresentar nua e crua. Comigo aconteceu hoje, e talvez eu só esteja organizando esse entendimento enquanto escrevo o texto que você lê. Me permita ser didático, ou lúdico, como preferir:

Imponha limites à sua criatividade e à sua proatividade! – Disse a realidade.

Sério?! – Esbravejei com a minha costumeira cara de deboche.

Cresci ouvindo que criatividade e proatividade são qualidades que te ajudam a ser um profissional que se destaca no trabalho, ou que te ajudam a ter um relacionamento longevo com sua parceira ou parceiro. E de fato são. Porém, será que tais qualidades são bem-vindas em todas as situações? Veja bem: Com criatividade, pró-atividade e uma super-cola é possível juntar de novo um vaso quebrado. Mas quantas vezes mais será necessário juntar de novo o vaso que já quebrou uma vez? Será que vale à pena despender energia nessa tarefa ingrata e infindável? Será que a casa não ficaria mais bonita se eu jogasse no lixo o vaso quebrado e comprasse outro novo, ou se simplesmente utilizasse o espaço deixado pelo vaso com outro ítem de decoração? Pode ser, inclusive, que o espaço nem precise ser preenchido – Eu chamaria de decoração minimalista – . E quanto à pessoa que quebrou o vaso, será que existe a possibilidade de ela passar a ter mais zelo pelos objetos de decoração, mesmo se eu continuar consertando o vaso todas as vezes que ela o quebrar? Será que a pessoa que quebrou o vaso reconhece devidamente o meu esforço em consertar a bagunça que ela causou?

Todo ser-humano carrega dentro de si a capacidade de se adaptar às condições mais adversas. Uns mais do que os outros, claro. Sou do tipo dos que facilmente se adaptam. E isso tem me ajudado na mesma medida em que me prejudica – A ambivalência está em todas as coisas, acredite! -. Quando me apaixono, seja por alguém, por um ideal ou por um objetivo; tenho a tendência a oferecer o melhor de mim. E por isso me aperfeiçoei na prática de consertar vasos quebrados com super-cola. E essa prática, com o tempo, se tornou tão natural, que já cheguei a olhar com estranhamento para alguém que abandona algo ou alguém quando esbarra com sérias dificuldades. Levei algum tempo para entender que às vezes “deixar ir, ou deixar acontecer” é a melhor, senão a única opção.

Acreditar no meu próprio potencial de realizar grandes feitos é uma qualidade que aprecio e pretendo cultivar. Mas acreditar que posso resolver tudo, que sou capaz de abraçar o mundo, é uma crença que, invariavelmente, me leva a um terreno de frustrações. Às vezes, o meu melhor não é o suficiente para garantir um resultado excepcional, e isso pode acontecer simplesmente porque não me foram oferecidas as condições necessárias. Não tenho superpoderes, afinal. E tudo bem se o resultado não for excepcional, porque se eu de fato sou portador dessa autoconfiança que anunciei com tanta propriedade aqui neste texto, por que me importaria com a opinião do outro? Tenho consciência do meu valor, não tenho? Não sou astro de cinema para atender à necessidade de agradar públicos de todas as faixas etárias e classes sociais. No máximo consigo agradar a uma plateia limitada, que retribui nas devidas proporções a atenção que ofereço.

E você, tem um vaso quebrado em casa? Pense que a decoração minimalista pode ser uma opção!

Imagem de capa: Ollyy/shutterstock

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Felipe Souza
O socorrense Felipe Souza descobriu cedo o seu interesse pela literatura e pela escrita. Nos primeiros anos da escola já era uma criança imaginativa que tinha especial interesse pelas aulas de Redação e de Língua Portuguesa. Na adolescência, já se arriscando a produzir seus próprios textos, participou de três edições do Mapa Cultural Paulista, tradicional concurso literário do Estado, inscrevendo seus contos, “Procura-se uma identidade, de 2005, “Rotina”, de 2006 e “(Minha vida cabe dentro de um parêntese)”, de 2007, que, em suas respectivas participações, conquistaram a primeira colocação na fase municipal da competição.Felipe cursou Letras- Português e Inglês, na PUC-Campinas e trabalha desde novembro de 2016 produzindo conteúdo jornalístico para a Rádio Socorro.

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