Marcel Camargo

Por maior que seja a saudade, não volte para quem despedaçou seu coração

Geralmente, quem está enxergando um rompimento do lado de fora acha muito fácil a pessoa seguir adiante, de cabeça erguida, sem olhar para trás. Como se fosse simples a gente lidar com sentimentos que nos preencheram por tanto tempo os sonhos de vida. Seguir em frente, no terreno amoroso, após uma chuva de frustrações, é uma das decisões mais difíceis que existem, porque a decepção então ocorre em relação a alguém de quem menos esperávamos algo desse tipo.

Saímos derrotados, esgotados emocionalmente, com os sentimentos em desordem e em frangalhos, tentando encontrar algum sentido naquilo tudo, naquilo que não faz sentido algum. Ninguém, em sã consciência, fica esperando pelo pior, em nenhum setor de sua vida, ainda mais no âmbito amoroso. Porque a gente se doa, a gente se entrega, a gente quer que o amor dê certo e conta diariamente com isso. E, então, a vida joga na nossa cara uma decepção absurda, uma traição covarde, um vazio que vem de onde repousávamos nossas mais tenras esperanças.

Mesmo feridos, mesmo decepcionados, a saudade do parceiro será inevitável. A gente não tem onde se agarrar quando a tempestade cai sobre nossas cabeças e as lembranças daquele amor compartilhado, ainda que frágil e ilusório, parece ser o único leme ali na frente. A gente se acostuma com a pessoa, com a rotina, com o estar junto, e tem a impressão de que não haverá mais aquilo, de que a felicidade não voltará, como se não houvesse outra forma de amor sem ser ao lado daquela pessoa – sim, aquela mesma que despedaçou o nosso coração.

É normal ter saudades. É normal ficar sem esperança momentaneamente. É normal chorar, varando madrugadas sob lágrimas. No entanto, ficar alimentando falsas esperanças em relação a quem nos machucou fundo e jogou o nosso melhor no lixo não é normal. A saudade e a vontade de reatar nunca poderão ser mais fortes do que a convicção de que o outro não vai mudar os comportamentos que ele repetiu durante todo o tempo em que vocês ainda estavam juntos.

Nenhum rompimento é fácil, seja ele de qual natureza for, porque a gente torna hábito muita coisa que é ruim, sem perceber. Então, quando a bomba explode, recompor-se será uma travessia lenta e dolorosa. Mesmo assim, por mais que estejamos sem forças, sem quaisquer perspectivas à nossa frente, precisaremos manter o pouco que nos sobra na direção do adiante, do em frente. Revisitar em pensamento o que se foi será inevitável, porém, querer a dor de volta será uma das piores atitudes de nossas vidas.

Imagem de capa: Federico Marsicano/shutterstock

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

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