Pisaram no meu castelo de areia. E agora?

Sabe aquele sonho que a gente alimenta e acalenta, muitas vezes durante toda a vida, acrescentando elementos, alterando personagens, dando vida e emoções a todos os detalhes cuidadosamente pensados? A nossa novela pessoal onde tudo acontece como achamos que deve ser? Esse sonho é o nosso castelo de areia que onda nenhuma desmancha e chuva alguma leva, porque é muito bem protegido e escondido dos perigos que a realidade oferece.

Isso é o que a gente pensa e quer, a imunidade que também completa o sonho perfeito. Mas de verdade, essa praia é muito mais perigosa e habitada por todos os tipos de intenções e sentimentos. Alguns são cuidadosos, carinhosos, amáveis. Desviam com delicadeza do nosso castelo para não derrubar um grão de areia sequer. Outros, de tão amistosos e parceiros, trazem enfeites e cores para a nossa construção. Chegam a adivinhar o que estamos querendo ou necessitando.

Outros contudo, pouco se importam, ou, de propósito mesmo, passam arrastando os chinelos e derrubando o que estiver na frente. Esses são os insensíveis, os endurecidos, orgulhosos, durões para destruir, covardes só para aparecer.

E o castelinho, embora frágil e temporário, fruto do nosso esforço e capricho, é alvo fácil para quem não tem intenção alguma de construir junto. É presa indefesa para aquela intenção predadora que sente fome de destruição.

E um dia, de fato pisam nele, não só desmontam uma torre, uma ala, mas sim a estrutura toda. Como faz para recomeçar um sonho, um projeto, uma ideologia tão pessoal? Como conviver com duras e magoadas lembranças dessa destruição? Melhor que a onda tivesse levado, que o vento tivesse derrubado, porque assim seria um acidente, a gente pensa. Ruim é saber que há uma culpa, uma intenção oculta.

O bom senso aconselha que a vida sempre segue e a praia é grande e areia não falta. Bora começar novamente, talvez com a lição de que um castelo é coisa demais para vigiar por toda uma vida, com detalhes e tesouros demais para proteger.

Bora buscar um sonho mais simples, mais espontâneo, que inclusive possa ir mudando de forma, de lugar e de importância, à medida que as conquistas forem chegando!

E dessa forma, não haverá pé que chute ou pise o que não consegue alcançar!

Emilia Freire

Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

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