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Quando chegamos ao limite dos nossos nervos

Pessoas gritam umas com as outras por causa de uma vaga no estacionamento, por causa de um prato que veio com o molho X, mas tinha que ter vindo com o molho Y, por causa de uma porcaria de televisão numa porcaria de liquidação da “Black Friday”.

Trata-se de um surto de intolerância, falta de paciência e exagerado senso de competição. Todo mundo quer ter razão. Todo mundo quer dar lição de moral, todo mundo quer “pagar de poderoso”.

O resultado? Um bando de gente com cara de caricatura. Bocas torcidas, caras azedas, olhos estreitos, sobrancelhas arqueadas, rostos crispados. Gente que em vez de falar, rosna. Rosna mesmo, igualzinho a uma fera encurralada.

O pior é o seguinte: já reparou como a pessoa fica ridícula quando perde a compostura? Por mais que tenha razão em sua queixa, ao deixar-se levar pelo embalo da emoção, ao sucumbir à raiva, quem foi desacatado ou provocado, acabará por dizer o que não precisava ser dito, escrever os mais incríveis impropérios, ou fazer coisas das quais poderá se arrepender amargamente depois.

A raiva tem origem em atividades cerebrais que acontecem nas amígdalas, que ficam em uma região primitiva do cérebro.

Por sua vez, o córtex frontal desempenha a difícil tarefa de regular nossas reações, nascidas lá nas amígdalas. Graças a ele e à ação de hormônios, como a serotonina, mesmo que estejamos com a maior vontade de esmurrar alguém que fura a fila, por exemplo, somos capazes de segurar a onda e recorrer a estratégias mais equilibradas, como manter uma discussão na base da argumentação e do diálogo.

Segundo explica o Professor e Neurocientista John Fontenele Araujo, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Ritmicidade, Sono, Memória e Emoção da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, “Numa situação de perigo ou ameaça, nossas áreas cerebrais ativadas são as mesmas de um urso, mas temos maior quantidade de córtex e, por isso, somos mais capazes de modular a raiva”.

Ao contrário do que possa parecer, sentir raiva não determina o uso da violência, seja verbal ou física. Agredir é uma escolha que se faz, com base na necessidade de se opor ao outro, ou de subjugá-lo, em última instância.

Esse desespero em busca de se sentir superior ao outro, pode levar os mais esquentadinhos a adotar posturas e escolher caminhos extremamente equivocados para resolver uma desavença, um desejo frustrado, ou, até mesmo uma real injustiça.

Nenhum de nós está livre de ter “um momento de fúria”. Sobreviver nesse mundo desequilibrado – que nós mesmos desequilibramos, verdade seja dita -, anda desafiando mesmo a nossa paciência.

No entanto, não custa nada recorrer ao bom e velho conselho de respirar profundamente ou contar até dez. A pausa, diante da situação que nos desequilibra, é um valioso recurso que devemos utilizar para dar chance ao nosso cérebro de escolher uma rota mais inteligente.

E já que temos um cérebro – com córtex mais desenvolvido que todos os outros animais, inclusive -, façamos a gentileza de utilizá-lo. E, da próxima vez, procuremos lembrar que viver rosnando por aí é, para dizer o mínimo, muito, muito constrangedor!

Ana Macarini

"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"

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