Para fazer um filho feliz, não é preciso ser supermãe

Quando eu não era mãe, ouvia relatos de mães que não conseguiram amamentar no peito seu filho recém-nascido e vinham teorias psicológicas na minha cabeça que constatava que essa mãe não se entregou o suficiente para o filho a ponto de alimentá-lo com seu próprio leite.

Quando eu não era mãe, ia ao supermercado e se encontrasse alguma criança fazendo birra, eu pensava: falta competência para essa mãe educar melhor seu filho e estabelecer limites.

Quando eu não era mãe, estive com amigas minhas que tinham filhos pequenos, fazendo qualquer coisa para a criança comer um pouco do prato servido no almoço, eu pensava: deixe passar fome que uma hora a criança vai comer.

Quando eu não era mãe, ficava horrorizada assistindo mães oferecerem aos seus filhos refrigerantes, comidas industrializadas e dizia para mim mesma: que preguiça de fazer algo melhor para as crianças.

Quando eu não era mãe, maldizia as mães que colocavam seus filhos pequenos em frente à televisão para assistir Galinha Pintadinha, Peppa Pig ou coisas parecidas.

Ah, quando eu não era mãe, certamente eu era a melhor mãe do mundo!

E um dia fui mãe!

Embora tenha me esforçado absurdamente para amamentar meu filho no peito, nenhum método funcionou. Senti-me culpada pela “falta de entrega”. Tive que entrar com leite artificial. No início da minha experiência, pensei que estava causando um trauma ao meu filho por não ser amamentado no peito. Quando ele estava com um ano e meio, descobriu-se que ele tinha inserção anteriorizada do freno da língua, ou seja, tinha a língua presa e por isso não mamava direito. E eu, mãe, tinha certeza que a culpa era minha.

E hoje há dois anos e seis meses sou mãe.

Fui uma supermãe até um ano e meio, cozinhava somente alimentos nutritivos, fazíamos refeições em casa, meu filho assistia muito pouco às programações da televisão, não comia doces e muito menos refrigerantes.

Mas que trabalho dá ser uma supermãe!

E minha vida não era somente ser mãe, tinha que ser profissional, esposa, cultivar minhas amizades e tantas outras coisas que as mães têm que fazer.

O problema de ser supermãe é que por fazer tudo absolutamente do jeito que a sociedade diz que é correto, é que não sobra disposição para estar inteira com seu filho. Haja tempo para cozinhar tudo que faz bem, tempo para entreter o filho sem televisão e paciência para todas as birras e manhas.

Atualmente, desisti de ser uma supermãe, resolvi ser somente mãe e sou mais feliz. Tenho mais tempo para ficar com ele, afinal não passo horas na cozinha preparando somente coisas extremamente saudáveis e recomendadas pelos pediatras, amigos, familiares e sociedade.

Voltei com minha agenda de trabalho de antes da maternidade, ele fica com a babá, afinal de contas todos nós temos que lidar com a falta e a primeira falta da criança é a mãe e terá que aprender a lidar com isso.

Quando faz birra nos supermercados, faz e pronto! Nada de traumas, nem para ele e muito menos para mim.

Enfim, agora decidi ser uma mãe normal! Sou aquela mãe que todos nós tivemos, sou aquela mãe igual às dos coleguinhas do meu filho.

Percebi que ele é mais feliz assim.

Agora sou mãe e pronto! E que ninguém me diga que ser “supermãe” é melhor para qualquer filho!

Elisangela Siqueira

Psicóloga com especialização em Psiquiatria e Psicologia da Infância e da Adolescência e em Psicoterapia Psicanalítica Breve. Mais de 10 anos de experiência. Atendimentos presenciais e online.

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