Para além dos votos tradicionais de matrimônio. Você está pronto?

Ouvimos os noivos falando isso tantas vezes na vida real, nas novelas, nos filmes, tantas, mas tantas que eu mesma já decorei a fala. Outro dia pus-me a pensar em cada frase dessa e na plenitude do seu significado...

Existem falas em nossas vidas que são absorvidas pelo cotidiano. Coisas que ouvimos falar desde sempre, que aderimos ao que é intuitivo como respirar ou comer, sem dar a devida atenção ao pleno significado.

Estava aqui pensando naqueles votos tradicionais do matrimônio. Sabe quais?

“Prometo ser fiel,

Amar-te e respeitar-te

Na alegria e na tristeza,

Na saúde e na doença,

Na riqueza e na pobreza,

Por todos os dias da nossa vida

Até que a morte nos separe”.

Ouvimos os noivos falando isso tantas vezes na vida real, nas novelas, nos filmes, tantas, mas tantas que eu mesma já decorei a fala. Outro dia pus-me a pensar em cada frase dessa e na plenitude do seu significado…

Prometo ser fiel. PROMETO é uma palavra forte, não é? Você garante a outra pessoa que lhe será fiel, dá a sua palavra que aconteça o que acontecer, seja qual for a tentação, você nunca, jamais trairá a confiança dela.

Aí lembrei do Renato Russo diferenciado lealdade de fidelidade. Lealdade pra mim é você estar ali do lado da outra pessoa até o fim, sem necessariamente ser fiel, mas honrando o compromisso de ficar maquiado ou de cara limpa.

Já a fidelidade é aquele compromisso de ser só para o outro e outro só para você. Fiel no pouco e no muito. Nos dois reais dando sopa na estante e no flerte que você vai ignorar até ofendido pela afronta, porque é fiel a quem está com você. Você promete e promessa, é dívida. Dívida que não caduca e que a vida cobra mais cedo ou mais tarde.

Amar-te e respeitar-te. Você olha bem nos olhos da outra pessoa e diz que vai amá-la, que vai respeitá-la… Dizer que amará alguém para sempre é uma promessa arriscada. As circunstâncias mudam, vocês podem não cumprir com os votos, podem magoar o outro e o amor virar dor. Mas ali, naquele momento, você tem certeza que ama.

Do meu ponto de vista, o amor é flor delicada que morre se for agredida ou exposta demais, mas que vive para sempre se for zelosamente cuidada. Se for respeitado, o amor fica, cresce, floresce sensivelmente e permanece.

Quanto ao respeito? Abrir a porta do carro é gentileza, lavar o prato é consideração. Respeito é tolerar o silêncio de um dia tenso, o mau-humor das contas para pagar, o cansaço da rotina, as manias irritantes, a personalidade alheia. Respeito é aprender a amar o outro tal qual ele é, sem a pretensão de fazer pequenas mudanças para adaptar a pessoa ao seu ideal de relacionamento. Respeito é enxergar as fraquezas e não tripudiar sobre elas. Respeito é empatia; e empatia é a palavra chave, tão importante quanto amar.

Na alegria e na tristeza. As promessas vão se acumulando… Você promete fidelidade, amor e respeito, na alegria e na tristeza. Porque é fácil ser fiel e amar quando tudo vai bem, quando a alegria se faz presente. Difícil é construir o amor na tristeza, na dor, nos dias ruins, nos dias em que a realidade vai de encontro às suas expectativas. Mas você prometeu… Prometeu que não importam as circunstâncias, manteria seu amor… E sua fidelidade… E seu respeito.

Na saúde e na doença. Um teste para a resistência do relacionamento. Esbravejar que o outro é mole, manhoso, não fazer pequenos mimos como um chá, uma massagem, um prato de sopa ou só um cafuné é derrubar água gelada sobre o fogo da relação.

Virar para o lado porque precisa dormir enquanto ela está gemendo de cólica; perder a paciência com o drama da dor de cabeça dele… Como seria se a vida trouxesse uma doença grave para vocês administrarem? E se os pais de vocês adoecerem? Ou os filhos? Se precisarem dividir os dias entre idas e vindas de hospitais e médicos?

Ali nos votos, vocês disseram que amariam, respeitariam, seriam leais mesmo quando tudo ficasse triste, mesmo que uma doença viesse acinzentar os dias. E promessa… É dívida.

Na riqueza e na pobreza. Ir ao mercado sem pensar no orçamento, comprar roupas novas, trocar de carro, planejar uma viagem. Que delícia, não é?

Procurar moedas pra comprar um pão, tirar bolinhas da blusa velha, vender o carro, esquecer como é viajar… Que provador, não é?

O dinheiro mascara qualquer realidade. Quando ele está presente e é farto, tudo fica mais fácil, porque ele facilita todas as coisas, é verdade. Assim como também é verdade que dinheiro não compra felicidade. Também é verdade que a falta dele vai colocar o amor à prova, o respeito, a fidelidade…

A grama do vizinho parecerá mais verde, a vida das outras pessoas mais fácil e vocês ali passando um perrengue quando parece que separados seria mais fácil, mais barato e menos estressante. Aí  vem o amor com dois braços enormes, junta vocês e diz: – “Qual é pessoal, eu estou aqui, vamos resolver isso juntos. Vamos pegar coisas aqui em casa pra vender, fazer hora-extra, reduzir as despesas. Tudo vai dar certo, vamos ficar bem”.  Mas pra isso, vocês precisam amar inclusive na pobreza. Às vezes dormir com fome, confiar na capacidade do outro, no ombro amigo do outro, saber que acima de todas as coisas tem um companheiro com quem pode contar.

Por todos os dias das nossas vidas, até que a morte nos separe…

Pegue todo esse contexto… Imagine dias felizes, férias planejadas, corpos sarados, saudáveis, filhos inteligentes, casa própria, carro quitado, amor fiel, leal, onde impere o respeito e a amizade. É fácil imaginar uma vida inteira assim; dolorido pensar na morte, porque a eternidade seria pouco para viver essa relação tão abençoada.

Agora imagine tudo “dando errado”. Desemprego, aluguel atrasado, carro batido, quilos a mais, hipertensão, filhos dando trabalho na escola, rebeldes, ciúmes, insegurança, medo de perder o pouco que tem vontade de ganhar na loteria, revolta e um desejo imenso de ainda assim manter o relacionamento, apesar de todas as dificuldades, por todos os dias de suas vidas, com o mesmo medo da morte afastar o que deverá ser sempre maior que tudo… O amor que os uniu.

É na doença, na tristeza, na pobreza, no cansaço, nas dificuldades que o amor é colocado a prova. É aí que as promessas são testadas. E acredito que antes de pensar em pronunciar esses votos, antes de pensar em viver toda uma vida ao lado de alguém, de criar laços com essa pessoa, devemos pensar se seremos capazes de cumprir com essas promessas quando tudo ficar difícil.

Porque promessa é dívida… E dívida que não caduca, dívida que a vida cobra, mais cedo ou mais tarde, mas cobra…

Você está pronto (a)?

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Luciana Marques
Luciana Marques é curitibana, nascida em 1981, mãe de dois filhos, Bióloga, formada em Educação Ambiental e Gestão Empresarial, trabalha como gerente administrativa e se diverte como escritora. Escreve por amor e hobby desde pequena. Encontrou nas palavras uma maneira de transcrever os sentimentos e sua visão de mundo, às vezes de forma intensa e complexa, outras simples e em muitas, desconexas. Acha que escrever é conversar com o mundo lá fora e com seu mundo interior.