Ana Macarini

Para abraçar uma nova vida a gente precisa se desgarrar da velha

Atire a primeira foto rasgada quem nunca teve dificuldades em se despedir de um amor que já tinha dado tudo o que tinha que dar. Dê uma “sambadinha” aí na cara dos mais sensíveis, quem nunca se comoveu no final de seus próprios enredos. Levante a mão, sem hesitar, quem nunca teve receio de se mostrar com medo de ser julgado.

Assim somos nós, seres humanos em infinitos processos de transição, oscilando entre a suposta paz das situações estáveis e o fogo no peito das arrebatadoras paixões inesperadas. É na hora do sufoco que a gente se dá conta do tamanho do fôlego que tem. É na hora do aperto que a gente mede a capacidade de se moldar a novos espaços ou de alargar novas possibilidades.

Sentadinho na sombra é que não dá para viver, certo? Mais cedo ou mais tarde, essa aparente moleza cobrará de nós o despreparo para enfrentar demandas ou, por que não dizer, aguentar o tranco.

O corpo humano é uma estrutura cheia de encaixes, protuberâncias e reentrâncias, projetado para se mexer. A falta de movimento, seja do ponto de vista orgânico ou filosófico, traz como sequela a falta de recursos para abraçar oportunidades, escapar das anunciadas ciladas ou desviar das pedradas gratuitas.

O perigo maior é a gente acabar feito aquelas plantas ornamentais que vivem grudadas em outras, nem tão bonitas, mas cuja anatomia projeta raízes em busca de substrato e “braços” para o alto em busca da ilimitada capacidade de florescer, frutificar ou folhear o ambiente com suas protetoras e afáveis estruturas.

Uma vez assumida essa postura de enfeite e dependência, fica notavelmente mais difícil romper com a preguiça de arcar com os próprios sonhos, com as próprias necessidades e habilidades de fazer a diferença e o diferente.

As descobertas mais incríveis moram no peito de gente destemida, persistente e inconformada. É a não aceitação das imposições que fazem a gente enxergar além do óbvio e ver saídas onde antes só éramos capazes de vislumbrar portas fechadas e ruas sem saída.

Para abraçar uma vida nova a gente precisa se desgarrar da velha. Fazer uma malinha para os desenganos, as limitações e os comodismos, levá-los com todo amor à estação de embarque e acenar de longe até vê-los ganhar outros caminhos. Deixá-los ir.

E assim que a despedida se consumar, dar meia volta no sentido oposto e perder o interesse de olhar para trás. Talvez, bem ali ao nosso lado, logo à frente ou lá no alto, haja alguma missão inteiramente disponível à espera de alguém com coragem e disposição.

Um passo depois do outro, e quem sabe no meio de uma dança, a gente não acabe descobrindo que só o que nos faltava era mudar a música, e ouvi-la, e permitir que ela nos conduza àquele lugar que antes era um sonho, e agora é a nossa própria razão de viver.

Imagem meramente ilustrativa: cena do filme “Estrelas Além do Tempo”.

Ana Macarini

"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"

Recent Posts

Perdeu muito peso e seu plano de saúde se recusa a custear a sua cirurgia reparadora? Saiba o que fazer

Por Nara Rúbia Ribeiro, advogada especizada em Direito Médico e da Saúde Você conseguiu. Após uma…

7 horas ago

Higiene no equipamento desportivo: como lavar e eliminar odores dos sacos e mochilas de padel

Um saco de padel utilizado com regularidade acumula suor, humidade e resíduos de equipamento húmido…

2 dias ago

Esta resiliente atriz marcou os anos 2000, sumiu dos holofotes após tragédia pessoal e hoje quase ninguém reconhece

Nos anos 2000, ela se tornou conhecida do público britânico, principalmente por causa de sua…

3 dias ago

O ano era 1980, e essa música não saía do rádio… Marcou uma geração! Será que você ainda reconhece?

A batida começa e a memória entrega tudo… Essa música virou febre em 1980. Será…

3 dias ago

Há quase 50 anos esta música estourou nas rádios mas hoje quase ninguém lembra. Você reconhece?

Um hino que soa como uma porta de entrada para os anos 80: acelerada, sensual…

3 dias ago

Todos olham para a família, mas é a empregada ao fundo que guarda a grande história

Na foto de 1961, ela ficou atrás de todos — mas sua vida não ficou…

3 dias ago