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Paixão: o poderoso sentimento que nos faz perder a razão

Seja na literatura, na história ou nas mais diversas manifestações da arte, a paixão está presente como um sentimento poderoso, arrebatador, insaciável, que escraviza e nos faz perder a razão.

Shakespeare, em Hamlet, já afirmava: “Dá-me o homem que não é escravo da paixão, e eu o usarei no cerne de meu coração, sim, no coração do coração, como faço a ti”.

Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Páris e Helena de Troia, Abelardo e Heloísa, Anna Karenina e Vronsky, Mata Hari e Vadim Maslov, Victor Hugo e Juliette Drouet, Ana de Assis e Dilermano, são exemplos de personagens da literatura, da mitologia ou mesmo da história que movidos pela paixão não mediram as consequências para ficarem juntos.

A paixão na sua forma apocalíptica pode ser muito bem representada no romance de Leon Tolstói. A aristocrata russa Anna Karenina, que dá nome a obra, deixa o marido, o filho e as convenções da época para viver a paixão pelo Conde Vronsky. Rejeitada pela sociedade e sem amigos, ela fica cada dia mais paranoica quanto à possibilidade do fim do relacionamento. Ciumenta, irracional e sem controle, a angustiada e apaixonada Anna se mata, dando fim, talvez, a mais dramática história da literatura.

Já na sua forma mais aprazível, a paixão pode ser representada pela história de Victor Hugo e Juliette Drouet. Ela, atriz, abandona a sua vida artística para se dedicar a ele, tendo o acompanhado durante quase meio século. Porém, sempre independente, Juliette recusou-se a dividir a mesma casa com o escritor, para que a paixão permanecesse acesa até o fim. Ela foi a musa inspiradora de Victor Hugo por mais de meio século.

A maioria das histórias mostra que os apaixonados desprezaram os acontecimentos alheios, não se intimidaram, ignoraram as críticas e o preconceito, exibiram seus afetos com ardor, não se desculparam, nem negociaram o que sentiam.

Não interessa se os envolvidos juraram castidade, eram casados, noivos ou namorados, eles foram capazes de romper quaisquer juras e promessas em nome da paixão.

No entanto, muitos sofreram e fizeram sofrer para viver o sentimento. Não há o que julgar. Não há certo ou errado, vilão ou mocinho. Tudo que existia era a vontade de estar ao lado da pessoa desejada.

A paixão é um sentimento poderoso, que nos deixa a flor da pele, mexe com os nossos instintos mais primitivos e, por isso, não pode ser racionalizada, explicada ou reprimida, mas apenas sentida.

Não existem diferentes tipos de paixão, toda ela é ardente e nenhuma é suave. A paixão não é escolha, pode ser uma dádiva ou uma sentença.

Viver uma paixão é dar uma chance ao amor. É também um ato de coragem, porque a dor pode ser inevitável, mas sufoca-la também não levará a um caminho melhor.

As pessoas que muito tentam se proteger do sofrimento, acabam se protegendo também da felicidade. Nas palavras de Voltaire: “Paixão é uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma. As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar. Outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas.”

Para os que abrem mão de uma paixão, deixando-a contida, restam apenas a serenidade dissimulada, a alegria fingida e o olhar opaco de quem não sabe o que é sentir o coração bater descompassado ao simples olhar da pessoa desejada.

Seja como for, ninguém está imune à paixão e quando ela chega, sem avisar, não tem remédio que a cure, não tem aguardente que a sacie, não tem reza que a faça sumir. Assim já cantava Chico Buarque:

“O que será que será\ Que dá dentro da gente e que não devia\Que desacata a gente, que é revelia\Que é feito uma aguardente que não sacia\ Que é feito estar doente de uma folia\ Que nem dez mandamentos vão conciliar\ Nem todos os unguentos vão aliviar\ Nem todos os quebrantos, toda alquimia\ E nem todos os santos, será que será\ O que não tem descanso, nem nunca terá\ O que não tem cansaço, nem nunca terá\ O que não tem limite.”

Segundo o filósofo Friedrich Hegel “nada existe de grandioso sem paixão”, então vamos celebrar esse sentimento arrebatador, irracional e poderoso.

Ana Vasconcelos

Não há limites para a arte, apenas liberdade.

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