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Os vampiros que nos espreitam

Eu aceito compartilhar a vida, o chocolate, a pipoca, as alegrias, emoções, suores e lágrimas, mas não aceito ser vampirizada.

Da mesma forma, acato pedidos, sugestões, conselhos, provocações, tentações, mas não acato nenhuma violação contra minha vontade.

Ainda consigo oferecer uma palavra, um abraço, alguns trocados, meia hora de prosa, um ombro amigo, uma bronca encomendada, mas não me ofereço para ser sugada.

Há vampiros por toda parte, e, conscientes ou não das suas próprias necessidades e diferenças, espreitam vítimas desavisadas, para garantir um pouco de seu sustento.

Vampiros morais, que confundem com teorias inventadas, longos e apaixonados discursos, como quem prepara um prato requintado, para devorar sozinho depois.

Vampiros éticos, que agem na legalidade das palavras e na obscuridade dos atos. Chupam honestidade e cospem seus mal feitos.

Vampiros capitais, que sugam o que não lhes pertence, usam do que é do outro, gastam, esbanjam, abusam e escondem o que é seu, na sua capa de avareza.

Vampiros emocionais, que sugam, chantageiam, negociam, regateiam, manipulam e descartam sentimentos que nunca fizeram por merecer.

Vampiros vitais, que não medem esforços para imobilizar e ferir suas vítimas, levando consigo a saúde, o ânimo, as esperanças e sonhos de quem lhes servir de alimento.

Eles espreitam e não vacilam. Não pensam nos outros como semelhantes, até mesmo porque realmente não o são. O que os alimenta e fortalece, é justamente o que adoece e mata cada uma de suas presas.

Vampiros podem ser divertidos, sedutores, intelectuais, charmosos, misteriosos. São homens e mulheres que aprenderam outros códigos, cuja fome é de gente, de vida alheia, de sonhos e planos que eles não são capazes de empreender.

Há quem goste de vampiros e gosto não se discute.
Cada um cuida de seu próprio pescoço, essa é a regra.
Porém, e muito cautelosamente, ouso acreditar que não há lugar para nenhum deles na minha vida. Eles que se embrenhem nas próprias trevas, pois que meu mundo, a palavra de ordem é luz!

Emilia Freire

Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

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