O que gente não conta, conta?

Imagem: Oksana Yurlova

Tem coisas que a gente faz questão de contar. Não importa porque, mas contar é bom, dividir, partilhar.

E, tem coisas que a gente não conta. Não conta porque não quer, porque não se sente confortável, porque não interessa a ninguém, porque a revelação não será um prazer.

Mas, e quando e gente começa a acreditar que se a gente não contou, não aconteceu? E quando a gente entra no campo de não contar sequer para o nosso travesseiro?

Um caminho que oferece enorme perigo, pois que já não se trata de não divulgar, mas sim de ignorar, negar.

Pode ser uma coisinha boba, pode ser um crime odioso. Pode ser qualquer coisa. A pergunta que se faz é: Isso conta?

Bem no início do ano eu passei por uma situação um tanto vergonhosa, daquelas que a gente repensa como fala, o que fala e de que jeito fala. Realmente, para negar, somos rápidos.

Bom, eu fui a uma consulta no gastro, estava com a digestão lenta, uma sensação chata, e cheguei lá reclamando desse inconveniente. Ele pegou uma folha de papel, uma caneta, e me perguntou o que eu tinha comido e bebido nas festas de final de ano, e ele então iria anotar TUDO.

Engoli seco e comecei a contar, falando quase para dentro, pausadamente, como uma oração, omitindo algumas coisas, confessando outras, colocando a culpa nos temperos de outra mão, e ele então parou e me falou, sério: – Se você não me contar direito, eu vou entender que você só veio aqui para passear e sequer acredita que eu possa te ajudar.

Além de ter ficado de cara no chão, percebo agora uma lista infinita de sentimentos, emoções e outras tantas coisas que a gente não conta sequer para nós mesmos, ou floreia, decora, enfeita, fala partes, descarta outras.

Pode ser bobo, pode ser sério. A pergunta que fica é: O que conta na vida para ela valer a pena ser contada?

Emilia Freire

Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

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