O que eu não te disse

Na primeira vez em que nos vimos, ambos tentávamos parecer alguém que não éramos. Você tentava parecer durão e eu tentava parecer alguém mais maduro e seguro de mim. Lembro-me de pensar, “Ok, como se conquista a amizade de uma criança de seis anos?”. Acho que acabamos conversando sobre super-heróis e zumbis. Porque até aquele momento eu acreditava que, aos 24 anos, o gosto por histórias em quadrinhos fosse a única parcela infantil que morava em mim. De início você tinha um olhar tímido e certo receio, o que é natural, tendo em vista que você estava vendo pela primeira vez o “novo amigo” da sua mãe. Mas esse receio logo foi embora, porque você é assim, você gosta das pessoas gratuitamente. E nasceu ali uma afinidade, mínima que fosse. Um esboço de algo que poderia ser.

Já na sua casa, no mesmo dia, nós desenhamos, fizemos o seu dever de casa, eu conheci o seu quarto (onde você nunca dormia) e todos os seus brinquedos. E então fomos jogar basquete. Nunca te disse, mas eu sou péssimo em esportes. E, de repente, você tropeçou na bola e começou a chorar. Quase que instintivamente eu corri até você e te acudi. E você se dependurou em mim feito um macaquinho. E eu acho que nesse momento eu senti medo. Eu tinha medo do afeto. Por ter uma mãe e um pai com muitos problemas de saúde, cresci me preparando para o momento em que fosse perdê-los. Então o afeto pra mim custava caro. E aquele afeto quase instantâneo que senti por você me assustou. Mas eu não dimensionava ou entendia as coisas com tanta clareza.

Algum tempo depois, fomos morar todos na mesma casa. É claro que não era mais a mesma coisa. Eu não era mais o novo amigo da sua mãe, eu era o novo marido dela. E esse novo status complicou as coisas. Você tinha que lidar com uma pessoa nova dividindo espaço e atenção com você. Eu tinha que lidar com a rejeição. Conversas sobre zumbis e super-heróis já não faziam mais o mesmo sucesso. Não era fácil. Mas quem foi que disse que seria? Você e eu somos bons de briga. E, aos trancos e barrancos, uma relação foi se desenhando. Na dureza da rotina diária, sem muitas cores ou fantasias. De segunda a sexta-feira tínhamos que te acordar muito cedo pra ir pra escola, fazer você escovar os dentes, te ajudar a vestir o uniforme, te ajudar a amarrar o tênis. Era uma briga boa! (rsrs). Mas às vezes o Sol saía e, mesmo a vida real se impondo com todo o seu potencial, conseguíamos colorir momentos prosaicos. Era uma música que tocava no carro enquanto íamos para a escola e cantávamos juntos em alto e bom som, ou um filme que assistíamos juntos antes de dormir – você amava Scooby Doo – , ou ainda uma tarde que passávamos no parque. Lembro que quando eu te levava ao parquinho do bairro, você fazia contato com várias crianças que nunca tinha visto na vida, aí, de repente, com uma admirável naturalidade, você perguntava para alguma das crianças, “ Você quer ser meu amigo?”, e eu pensava, “Por que não somos todos assim, descomplicados e sem reservas?”. Mesmo eu tendo te ensinado a amarrar o cadarço do tênis, acredito que você me ensinou muito mais do que eu te ensinei. Você me ensinou a amar de um jeito que eu nunca imaginei que fosse capaz. Um amor que vai crescendo com o tempo, que vai se transformando… De início, admito, a palavra “padrasto” me soava estranha. Eu quase achava engraçado ser chamado assim aos 24 anos de idade, sem nunca nem ter cogitado ser pai. Mas na primeira vez em que te vi me apresentar para uma amigo como seu “padrasto”, senti um orgulho e uma emoção tão grande que quase não pude me conter. Momentos assim fizeram crescer esse sentimento estranho. Amar uma criança que não vi crescer. Um amor inédito, inusitado. Eu mal podia crer.

Foram muitos momentos. Noites em claro vigiando o seu sono quando você estava com febre, idas ao hospital, ao shopping, pacotes de figurinhas que eu comprava pra você na banca da esquina, o sorvete que tomávamos na sorveteria depois de um passeio pelo bairro, muitas histórias mirabolantes que eu te contava e você saía contando pra todo mundo, brigas, risadas, choros, momentos de tensão e de calmaria, aprendizados, a música que você cantava em inglês, os fins de semana intermináveis, as partidas de futebol, idas e voltas. Passamos muito rápido pela vida um do outro, mas esses momentos valeram por uma vida inteira.

A distância e o tempo assentam as arestas. E se hoje posso te dizer isso tudo, é porque entendo e aceito. O que eu ainda não te disse é que te amo e que desejo que você cresça e seja a melhor pessoa que puder ser. Que ame e seja amado. Que tenha sonhos e os realize. Que esteja rodeado de gente de bem. Que preserve no seu espírito a sensibilidade da criança que você foi. Amor nunca é demais.

Do seu amigo, Fê.

Imagem de capa: x4wiz/shutterstock

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Felipe Souza
O socorrense Felipe Souza descobriu cedo o seu interesse pela literatura e pela escrita. Nos primeiros anos da escola já era uma criança imaginativa que tinha especial interesse pelas aulas de Redação e de Língua Portuguesa. Na adolescência, já se arriscando a produzir seus próprios textos, participou de três edições do Mapa Cultural Paulista, tradicional concurso literário do Estado, inscrevendo seus contos, “Procura-se uma identidade, de 2005, “Rotina”, de 2006 e “(Minha vida cabe dentro de um parêntese)”, de 2007, que, em suas respectivas participações, conquistaram a primeira colocação na fase municipal da competição.Felipe cursou Letras- Português e Inglês, na PUC-Campinas e trabalha desde novembro de 2016 produzindo conteúdo jornalístico para a Rádio Socorro.

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