O dia em que Fernanda Montenegro fez uma plateia de crianças ir às lágrimas

No próximo dia 16 de outubro, uma das maiores artistas que este país já conheceu comemora 90 anos de idade.

Felipe Souza

No próximo dia 16 de outubro, uma das maiores artistas que este país já conheceu comemora 90 anos de idade. A espetacular Fernanda Montenegro, que já nos brindou com inúmeras atuações inesquecíveis no teatro, no cinema e na TV, se aproxima do seu aniversário mais ativa e necessária do que nunca. Em um país em plena efervescência política, em que a cultura é tratada como pauta desnecessária – para dizer o mínimo -, ela utiliza sua voz em defesa da classe que representa, “Um país sem cultura é um país sem educação.”. E, por tanto, os últimos dias tem sido de muitos aplausos e homenagens à atriz que melhor sintetiza a luta e a resistência da cultura em um país que censura livros, filmes e peças de teatro.

Como parte das homenagens a Fernanda Montenegro a Rede Globo exibiu um Globo Repórter diferenciado onde o escritor e jornalista Edney Silvestre permeou grande parte da história da atriz e, nessa semana, exibiu o filme “Central do Brasil”, dirigido por Walter Salles e escrito por João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein. O filme de 1998, estrelado por Fernanda, em uma atuação brilhante – que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 1998 – , é uma jóia preciosa do cinema nacional. Lembro-me de ter visto no cinema, à época do lançamento. Foi uma experiência arrebatadora.

Eu tinha nove anos quando Central do Brasil ganhou as telonas. Era um menino pobre do interior de São Paulo que não tinha acesso fácil a produções culturais, mas muito interesse; então, quando a minha professora da terceira série do Ensino Fundamental propôs levar a minha turma ao cinema para ver o filme, fui dos mais entusiasmados. É claro que não se trata de uma experiência fácil para uma criança recém-letrada, afinal, a produção de Walter Salles é densa e profunda, com aquelas longas pausas dramáticas que só o cinema permite, mas, ainda assim, era impossível não se deixar conduzir pela história. Tudo ali era uma descoberta para todos nós, porque o Brasil retratado no filme era completamente diferente daquele que nós experimentávamos na nossa realidade minimamente privilegiada. Entrar em contato com a dor do menino órfão que procura um pai que nunca conheceu era como entrar em contato com os nossos maiores medos. Lembro-me do meu incômodo e da minha angústia, e dos olhares vidrados dos meus colegas assistindo à cena da morte da mãe do garoto.

Ao fim do filme, (alerta de SPOILER) Dora, personagem de Fernanda, finalmente se despede do menino a quem ela tinha ajudado a encontrar o pai depois de uma longa jornada pelo sertão nordestino. Ela partia de ônibus, transmitindo no olhar um misto de alívio pelo dever cumprido e pesar por deixar o garoto, e ele a seguia do lado de fora às lágrimas. Das cenas mais lindas e tristes que já vi. E assistindo aquilo, percebi uma lágrima intrusa querendo sair. Me contive, afinal não havia – no meu entendimento de criança – motivo para aquilo acontecer. Então olhei ao meu redor e vi mais umas cinco ou seis crianças com os olhos marejados. E este foi o dia em que Fernanda Montenegro fez uma plateia de crianças da terceira série experimentar o poder da arte.

A arte moldou quem eu sou hoje, das minhas escolhas no campo profissional à minha capacidade de enxergar além do horizonte. E Fernanda Montenegro fez parte disso. Ela é a própria cultura personalizada, um corpo que se empresta para encantar e emocionar até as mais distantes plateias. Fernanda Montenegro existe e a arte resiste. Um viva!

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(Foto: Leo Aversa/Agência O Globo)

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Felipe Souza
O socorrense Felipe Souza descobriu cedo o seu interesse pela literatura e pela escrita. Nos primeiros anos da escola já era uma criança imaginativa que tinha especial interesse pelas aulas de Redação e de Língua Portuguesa. Na adolescência, já se arriscando a produzir seus próprios textos, participou de três edições do Mapa Cultural Paulista, tradicional concurso literário do Estado, inscrevendo seus contos, “Procura-se uma identidade, de 2005, “Rotina”, de 2006 e “(Minha vida cabe dentro de um parêntese)”, de 2007, que, em suas respectivas participações, conquistaram a primeira colocação na fase municipal da competição. Felipe cursou Letras- Português e Inglês, na PUC-Campinas e trabalha desde novembro de 2016 produzindo conteúdo jornalístico para a Rádio Socorro.